O PERFUME DA SERPENTÁRIA | O maior símbolo da Nação*

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Os símbolos nacionais são realizações imagéticas ou sonoras que oficialmente representam uma nação ou um estado soberano (nem sempre representam o mesmo). No caso de Portugal, e segundo a Constituição da República, são a Bandeira de Portugal e A Portuguesa, o nosso Hino, adoptados “de facto” em 1910 e “de jure” em 1911. O Código Penal prevê a punição com prisão a todo aquele que “publicamente, por palavras, gestos ou divulgação de escrito, ou por outro meio de comunicação com o público, ultrajar a República, a Bandeira ou o Hino nacionais, as armas ou emblemas da soberania portuguesa”. Lembro-me de um episódio em que um jovem licenciado em Artes Visuais pela Universidade do Algarve foi a tribunal responder pela acusação do crime de ultraje à Bandeira Nacional, por ter criado uma escultura na qual o pavilhão nacional estava “enforcado” num cadafalso e exposto num terreno à borda da EN 125, em Faro. Portanto, RESPEITINHO!
Para além dos símbolos nacionais constitucionalmente legitimados, existem outros, que apesar de possuírem um estatuto menor, não deixam de representar a Portugalidade. Recentemente, e a propósito da requalificação do jardim da Praça do Império em Lisboa, assistiu-se a uma forte contestação à possibilidade dessa requalificação fazer perigar os brasões florais. Este evento até foi aproveitado pelo CHEGA (QUEM MAIS!) para propor no parlamento um programa nacional de “cultura e memória” (ou lá o que é). Mais do que a heráldica e as marchas patrióticas, existem outras alegorias que de alguma forma nos representam como Nação: a efígie da República, o Galo de Barcelos, o Fado, Os Lusíadas, o Sobreiro, a Caravela. Esta simbologia mais “profana” também se afigura capaz de retratar a nossa identidade enquanto povo. No entanto, não posso de deixar de manifestar a minha mais profunda perplexidade (consternação, até) pelo facto do símbolo mais distintivo da nossa identidade sócio-cultural ser, permanentemente, destratado: O CHICO-ESPERTO.
O CHICO-ESPERTO É NOSSO E MUITO NOSSO. O CHICO-ESPERTO é um tipo de vigarista que grassa desde sempre no cerne da nossa analogia. O CHICO-ESPERTO está pressente no território de Portugal, desde a mais recôndita aldeia do interior, até à mais cosmopolita das cidades. A CHICO-ESPERTICE não escolhe idade, credo, condição social ou sensibilidade política. O CHICO-ESPERTO é dotado de uma imaginação galopante e, de acordo com o poder que tem (e pode ser pequenino), tenta sempre obter vantagem para si (ou para cônjuges, filhos, noras, genros, primos, amigalhaços). O CHICO-ESPERTO detentor de poderes menores (basta-lhe o poder sobre os comandos de um automóvel) já é capaz de provocar sobeja irritação. O CHICO-ESPERTO mais poderoso, já só se contenta em exorbitar a sua CHICO-ESPERTICE nas Ilhas Caimão ou no Panamá. É na demanda do poder que o CHICO-ESPERTO prospera. Por esse motivo é que a política é povoada por tantos. Só por ingenuidade ou desonestidade intelectual é que se poderá dizer que este ou aquele partido é mais ou menos frequentado por CHICOS-ESPERTOS. Eles estão por todo o lado. No entanto, será justo afirmar que quando “cheira a poder”, os CHICOS-ESPERTOS têm tendência a eclodir como ratazanas numa lixeira à chegada de mais um camião de lixo (Pombal está pejado desta fauna. OH, SE ESTÁ!). Mas o que parecia ser uma verdade lapalissiana: “o grau de dano que o CHICO-ESPERTO pode causar é directamente proporcional ao seu poder”, caiu por terra com a chegada desta nova estirpe de CHICOS-ESPERTOS: o CHICO-ESPERTO FURA-FILAS DE VACINAÇÃO. Este canalhita, apesar de, em tantos casos, não ser possuidor de grande poder, através de jigajogas mais ao menos elaboradas (com a conivência de outros CHICOS-ESPERTOS da mesma qualidade), alcança furtivamente a inoculação “milagrosa”. Para esta progénie de CHICOS-ESPERTOS, o facto de diariamente morrerem centenas não lhe faz mossa. Mas não será legítimo articular a questão sobre quais as razões pelas quais a TASK FORCE DA VACINAÇÃO não previu a intromissão destes micos no processo? Talvez por se deixar designar por um anglicismo (inútil e particularmente palerma) e se tenha esquecido do ditado popular tão português e inventado agora mesmo: “A ocasião para a prática da CHICO-ESPERTICE, faz o CHICO-ESPERTO”.
O CHICO-ESPERTO não é fácil de classificar taxonomicamente. Vi há pouco tempo um documentário na RTP (“Deus Cérebro”) que formulava e sustentava a tese de que o desenvolvimento da consciência corresponde ao clímax da evolução humana. Assim sendo, o CHICO-ESPERTO, por ser pouco provido deste dom, representa um tipo de humanóide arcaico. Deste ponto de vista, o CHICO-ESPERTO FURA-FILAS DE VACINAÇÃO terá de ser classificado como um símio antropomorfo.
Mas se temos tantos CHICO-ESPERTOS e de tanta “qualidade”, o que fazer com estes antropóides? Pelo seu estatuto de símbolo oficioso de Portugal, não lhes podemos fazer mal. Pelo contrário, pela sua proeminência no nosso povo, até se poderia justificar alterar o Bandeira Nacional no sentido de acrescentar ao Escudo Português a efígie do CHICO-ESPERTO (talvez a aparecer sorrateiramente por detrás de um dos sete castelos que simbolizam as surras que D. Afonso III deu aos Mouros, na conquista dos Algarves). Para aproveitar este património de valor inestimável, porventura, não fosse má ideia escolher de entre os CHICOS-ESPERTOS, os mais capazes para o exercício da CHICO-ESPERTICE e recrutá-los para as entidades públicas mais vulneráveis à CHICO-ESPERTICE (TODAS!), no sentido de antecipar as CHICO-ESPERTICES dos outros CHICO-ESPERTOS. Aos CHICO-ESPERTOS FURA-FILAS DE VACINAÇÃO, por terem optado por uma modalidade de CHICO-ESPERTICE tão ORDINÁRIA e DESNATURADA, a única honraria que proporia que se lhes reservasse, seria a sonegação do direito de acesso ao Serviço Nacional de Saúde FOREVER. BEM FEITO!!!

Aníbal Cardona
Consultor/Formador

*O autor deste artigo acha que o novo acordo ortográfico é um exercício de CHICO-ESPERTICE pseudo-erudita.

 

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Engenheiro Técnico Agrário pela Escola Superior Agrária – IPB – Beja. Licenciado em Segurança e Higiene do Trabalho e Mestre em Gestão Integrada da Qualidade, Ambiente e Segurança pela Escola Superior de Segurança, Tecnologia e Aviação – ISEC – Lisboa. Foi durante mais de uma década responsável de Departamento da Qualidade, Ambiente e Segurança em diversas empresas. É consultor e formador em Sistemas de Gestão. É Professor Adjunto Convidado na Escola Superior de Tecnologias da Saúde de Coimbra. Foi prelector / moderador em diversos congressos, seminários e work-shops sobre a temática da Segurança e Higiene do Trabalho e Gestão da Qualidade. É autor e co-autor de diversos artigos científicos publicados na área da Saúde Ocupacional. Desempenha actualmente as funções de vereador da Câmara Municipal de Pombal.