O PERFUME DA SERPENTÁRIA | Johann Strauss versus Nel Monteiro*

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Mesmo que na véspera me tenha deitado tarde e com um “copito a mais”, no dia 1 de Janeiro gosto de ver na televisão o Concerto de Ano Novo da Orquestra Filarmónica de Viena. Encanta-me a música, a deslumbrante sala do Musikverein e o ambiente sofisticado que, apesar de estar a quase 3.000 quilómetros, consigo sentir. Sonho um dia poder experimentar ao vivo as sensações de um momento destes. Dificilmente terei a oportunidade de concretizar esse sonho. Ao que julgo saber, não permitem pelintras na sala. Das grosse finale (perdoem-me o germanismo) é, invariavelmente, a intemporal Marcha Radetzky. É neste átimo que o Maestro pede ao público que o acompanhe com palmas. Empolgado, e apesar de não ser a minha peça preferida de Strauss, dou por mim a bater palmas também (comportamento talvez causado por um resquício do efeito do espumante da véspera). SUBLIME! Nos antípodas deste requinte encontra-se a situação política local. Tão risível que seria capaz de inspirar um qualquer autor de novelas mexicanas de segunda categoria. O seu génio e haurido poderia desenhar um enredo assim**: Numa terra distante e cada vez mais miserável, vivia um poderoso clã em que todos os seus membros se odiavam. O mais poderoso de todos, Il Capo, homem soberano e prepotente, dominador da arte do enxovalho e da desonra, gostava de se divertir à custa dos outros membros do clã menos capazes. Como para estes se sentirem felizes lhes bastavam as honrarias e o generoso soldo, acediam com sacrifício às sevícias que Il Capo lhes reservava (apesar de em privado maldizerem o patriarca). Assim, juntavam um pé-de-meia jeitoso. Como nada é à borla iriam comprovar a teoria da transmutação das espécies, aventada por Darwin. As suas colunas vertebrais perdiam apressadamente a rigidez óssea, transformando-se em cartilagem. Mas os folguedos de Il Capo não paravam e eram cada vez mais engenhosos e animados. Lembrou-se um dia de retirar as atribuições e o pré ao mais jovem, ambicioso e desbocado filiado do clã. E para mais o arreliar, ofereceu as suas prerrogativas a um outro associado (diz-se que nunca o deixou de ser?!?) há muito desavindo e que, pelo valor dos apanágios, não se importou de ser um mero instrumento de vendetta. Iguais, tanto na coragem como na vulgaridade, Il Capo e o juvenil ressentido enfiaram os seus pezinhos bem tratados nos chinelos mais reles, e verbalizaram uma altercação reveladora de que, nem por um segundo que seja, perceberam o esguardo que o órgão que representam exige. Face ao desvario do dominante e do petiz, o clã juntou-se em reunião magna para exigir aclarações sobre o acontecido. O chefe do clã, lá metido para nada decidir, na contingência de ter de ditar uma sentença, fugiu para parte incerta e nunca mais foi visto. Sem quem pudesse, com propriedade, tomar um juízo, foi Il Capo que o proferiu: Anunciou a sua retirada logo que findasse os afazeres que tinha entre-mãos, lançando para a frontaria (por caturrice) o seu pouco estimado sucessor, ainda um pouco assombrado pela sequência de sucedimentos.

Por que razão um homem tão inteligente e preparado sairia de cena por tão diminuta portinhola?

Aqui o argumentista poderia pousar a pena e cogitar que proscénios plasmaria para os próximos episódios: Por que razão um homem tão inteligente e preparado sairia de cena por tão diminuta portinhola? Seria ele capaz de tolerar a desveneração a que se sujeitam os que estão anunciadamente a prazo? Não passará a sua vitimização de um ardil para sair do imbróglio mais preponderante que nunca? Talvez nem ao escritor ocorra a forma de como desenrodilhar tão emaranhado novelo. Independentemente do que nos reservam as cenas dos próximos capítulos, não será com certeza a tão batida Marcha Radetzky a farolizar o GRANDE FINAL. Terá de ser algo mais faustoso e coincidente com o nível da historieta e dos seus protagonistas. Talvez o “Fico à rasca, fico à rasca” do Nel Monteiro. Só lamento que a minha terra tenha de “dançar” ao som da mesma música. ATÉ QUANDO?

Aníbal Cardona
Consultor/Formador

*O autor deste artigo acha que o novo acordo ortográfico é tão caricatural como a situação política de Pombal.
** Qualquer semelhança entre os personagens desta história e figuras reais é mera coincidência. OU TALVEZ…

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Engenheiro Técnico Agrário pela Escola Superior Agrária – IPB – Beja. Licenciado em Segurança e Higiene do Trabalho e Mestre em Gestão Integrada da Qualidade, Ambiente e Segurança pela Escola Superior de Segurança, Tecnologia e Aviação – ISEC – Lisboa. Foi durante mais de uma década responsável de Departamento da Qualidade, Ambiente e Segurança em diversas empresas. É consultor e formador em Sistemas de Gestão. É Professor Adjunto Convidado na Escola Superior de Tecnologias da Saúde de Coimbra. Foi prelector / moderador em diversos congressos, seminários e work-shops sobre a temática da Segurança e Higiene do Trabalho e Gestão da Qualidade. É autor e co-autor de diversos artigos científicos publicados na área da Saúde Ocupacional. Desempenha actualmente as funções de vereador da Câmara Municipal de Pombal.