O PERFUME DA SERPENTÁRIA | Civilization*

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Enquanto andei a estudar não tinha computador. Na altura, era considerado um luxo que poucos podiam usufruir. Quando precisava de passar os trabalhos escolares, tinha de o fazer na biblioteca da escola. Como não era muito desenvolto a teclar, demorava horas a fio. Era um martírio. Talvez seja a lembrança destes tormentos que faz com que, ainda hoje, olhe para os computadores com algum desafecto. A certa altura, fui viver para uma residência de estudantes. Como havia lá malta da Engenharia Informática (estes sim, tinham todos computadores), pelo menos algumas vezes, tinha a sorte de me deixarem trabalhar nas máquinas deles. Recordo-me especialmente de um tipo de Famalicão, o Hélder, que para além de permitir que usasse o seu computador, não poucas vezes, ao observar a minha imperícia com as teclas, ele próprio passava os meus trabalhos. Era um porreiraço.
A única chatice (nada comparado com as “secas” que apanhava na biblioteca) era que tinha de esperar que ele acabasse de usar o computador. Umas vezes estava a estudar, outras (muitas) estava a jogar. E lá ficava eu a assistir. Lembro-me principalmente de um jogo chamado Civilization. Tratava-se de um jogo de estratégia cujo objectivo era desenvolver uma civilização desde o início dos tempos, até a um ponto algures no futuro e competir com outras civilizações, que poderiam tornar-se aliadas ou hostis. Ao longo do desenrolar do jogo, o jogador ia fazendo evoluir a sua civilização, nomeadamente através do descobrimento de diversos instrumentos e materiais como a roda, a cerâmica, o ferro, o bronze, a literatura, a matemática, a arquitectura, etc. Apesar de nunca ter jogado (só observava) achava o jogo muito interessante. Sobretudo, porque o sucesso (desenvolvimento) dependia de uma utilização criteriosa do conhecimento obtido e da constituição de um modelo claro de progresso. Nas fases menos evoluídas da “civilização”, alocavam-se muitos recursos em estruturas bélicas para prevenir invasões dos outros impérios em confronto. Nestes estágios, era comum surgirem focos de contestação popular ao poder instituído. Curiosas eram as formas mais comuns de emudecer estas movimentações: realizando festividades ou construindo templos.
Não posso deixar de registar o paralelismo entre a forma de apaziguamento do povo utilizada pelo criador do jogo, Sid Maier, e pelos decisores de Pombal. Sabemos que a Junta de Pombal se especializou em folguedos. O que não sabíamos é que a Câmara não desdenha da ideia (pensava eu, enterrada há 30 anos) de construir uma nova igreja em Pombal para granjear o mesmo desiderato. As diferenças em relação ao Civilization advêm do facto do seu autor entender que estas realizações só surtem efeito em fases muito rudimentares da evolução, enquanto os nossos mandantes as julgam apropriadas aos nossos tempos.
Não é só pelo que referi que se nota alguma confusão em relação ao significado real do conceito de anacronismo por parte do poder vigorante. Também é manifesto relativamente ao misterioso MASTERPLAN da zona de interface modal de transportes de Pombal e das áreas envolventes. Grosso modo, um MASTERPLAN é um instrumento de planeamento urbano que considera a cidade como um organismo vivo, dotando-a da flexibilidade necessária para que se possa ir adaptando às exigências dos tempos futuros. Mas observando sempre o seu conceito de coerência arquitectónica de base e funcionalidade. Não estou seguro de que uma intervenção desta magnitude e prevalência numa cidade tenha de ser objecto de consulta pública. Mas mesmo que não seja obrigatório esse mecanismo, pela relevância e perpetuidade do seu desfecho, ele deveria ser accionado. Ao que julgo saber, os projectos parcelares das áreas envolventes já foram adjudicados, tendo mesmo, alguns deles, objecto de concurso para a execução da obra (incluindo o do Jardim do Cardal – baluarte do arrojo do Regime). Isto significa que quando o MASTERPLAN e/ou os projectos parcelares forem apresentados à população, mesmo que algum concidadão tenha o atrevimento de apontar alguma falha de concepção, de funcionalidade ou mesmo de conceito, PACIÊNCIA! Face a esta obtusa inversão da sequência lógica das coisas, duvido que alguma alteração que possa vir a ser proposta, e que vá para além da mudança da cor das lâmpadas, tenha possibilidade de ser acolhida.
Pombal já merece alguma sofisticação na acção de quem, confortavelmente, nos comanda há 30 anos (e já agora, algum RESPEITO PELA NOSSA INTELIGÊNCIA E OPINIÃO).

Aníbal Cardona
Consultor/Formador

*O autor deste artigo acha que o novo acordo ortográfico está desfasado do que entende significar uma evolução.

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Engenheiro Técnico Agrário pela Escola Superior Agrária – IPB – Beja. Licenciado em Segurança e Higiene do Trabalho e Mestre em Gestão Integrada da Qualidade, Ambiente e Segurança pela Escola Superior de Segurança, Tecnologia e Aviação – ISEC – Lisboa. Foi durante mais de uma década responsável de Departamento da Qualidade, Ambiente e Segurança em diversas empresas. É consultor e formador em Sistemas de Gestão. É Professor Adjunto Convidado na Escola Superior de Tecnologias da Saúde de Coimbra. Foi prelector / moderador em diversos congressos, seminários e work-shops sobre a temática da Segurança e Higiene do Trabalho e Gestão da Qualidade. É autor e co-autor de diversos artigos científicos publicados na área da Saúde Ocupacional. Desempenha actualmente as funções de vereador da Câmara Municipal de Pombal.