O PERFUME DA SERPENTÁRIA | A nobreza do sacrifício*

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Podemos definir sacrifício como a privação dos próprios interesses, a renúncia, a provocação do próprio sofrimento por alguém ou algo. A história da Humanidade está repleta de casos em que o sacrifício supremo era encarado como uma forma de agradar a um Deus ou a uma força espiritual superior. Apesar da evolução dos tempos ter, paulatinamente, tentado eliminar essas práticas, podemos observar que, em determinados contextos, ainda perduram. Um exemplo prototípico de sacrifício e que (infelizmente) conhecemos é o do bombista-suicida. Para ele será nobre e inteligível sacrificar sua própria vida, matando dezenas de pessoas inocentes em prol do seu ideal religioso / político. Mas nem sempre o sacrifício se produz com a subjugação dos outros. Todos nos lembramos da história do jovem tunisino Mohamed Bouazizi que se imolou pelo fogo como protesto pelas miseráveis condições de vida no seu país e que serviu de rastilho à Primavera Árabe. Ou da mais longínqua Greve de Fome Irlandesa que resultou na morte de 10 activistas do IRA e que culminou com a radicalização das políticas do Nacionalismo Irlandês. O mártir acredita na justiça, magnitude e integridade da causa. Daí a sua determinação.
Tenho lido nos jornais dos últimos dias, múltiplos e ferozes ataques a uma corajosa mártir cuja bravura e nobreza gostaria de elevar. Refiro-me à deputada do Livre, Joacine Katar Moreira. Para percebermos a grandiosidade deste ser humano e a enorme injustiça de que tem sido alvo, proponho uma reflexão sobre os contornos do seu cruel martírio.
Tudo começou no final da noite de 6 de Outubro. O LIVRE elegia pela primeira vez um deputado para a Assembleia da República. O júbilo inicial dos apoiantes do LIVRE pelo excelso resultado foi-se esbatendo progressivamente quando se tornou evidente que outro pequeno partido também havia alcançado o mesmo desiderato: O CHEGA. Para compreendermos esta inquietação convém revisitarmos a origem e princípios do LIVRE. Este movimento político tem na sua génese o chamado “Manifesto para uma Esquerda Livre” subscrito por milhares de portugueses, entre os quais algumas figuras de relevo das mais diversas áreas da sociedade, como por exemplo: Boaventura de Sousa Santos, Ana Sousa Dias, António Mega Ferreira, Sérgio Godinho, Vitorino, Ana Gomes, Inês de Medeiros, Isabel Moreira, apenas para mencionar as mais conhecidas. Quando se constituiu como partido, o LIVRE fez migrar a substância do manifesto para os seus princípios políticos: A defesa das liberdades e dos direitos cívicos, a igualdade e a justiça social, o aprofundamento da democracia em Portugal e na Europa, a sustentabilidade e respeito pelo meio ambiente.
A tal apoquentação resultou da tomada de consciência de que o CHEGA, através da sua marioneta André, acostumado a discutir sanguineamente penaltys e capaz dos maiores artifícios de teatralização, poderia, com a mediatização que a condição de deputado lhe outorga, levar a cabo uma infindável mise-en-scène que os partidos instalados no parlamento (já um bocado gorditos) teriam uma grande arduidade em entenebrecer. Ciente de que o povo gosta de circo (se não, o Correio da Manhã ia à falência) e para que este não se deixe inebriar pela galra de Ventura, o LIVRE, fiel aos seus princípios de defesa da democracia e da liberdade, chama a si essa responsabilidade e aceita o seu próprio sacrifício (e de Joacine). Para isso, empreende uma magistral estratégia de “dar nas vistas” para eclipsar mediaticamente o atrevido Ventura. Secundarizar as dramatizações do André não é uma demanda simples. MAS CONSEGUIRAM-NO! Não obstante Ventura ter despido a camisa castanha para vestir a t-shirt branca do MOVIMENTO ZERO (QUEM É?!?!) e andar a mostrar facturas falsas, o LIVRE, através da sua mártir Joacine, conseguiu ficar no centro das atenções mediáticas. Na execução deste industrioso mas honroso plano, podemos afirmar que Joacine se excedeu: metamorfoseou o programa do LIVRE (equilibrado e justo) numa simples evocação anti-racista e anti-misógina; muniu-se de um cretino de saias como seu assessor; mudou as pilhas ao seu aparelho de gaguejar; ignorou o regimento da Assembleia da República; enxovalhou publicamente o seu partido e em cada entrevista que deu, procurou mostrar-se como uma criatura arrogante, infantil e deslumbrada. Em pouco mais de um mês, a longânime Joacine conseguiu, com o seu sacrifício (já é um defunto político) ofuscar quaisquer farsas e dissertações populistas de André Ventura.

Reconheço o enorme esforço de Joacine que, resignadamente se massacrou por um bem maior e sinto a vergonha alheia quando leio ou oiço o cruel linchamento político e de personalidade desta honorável e valente.

Reconheço o enorme esforço de Joacine que, resignadamente se massacrou por um bem maior e sinto a vergonha alheia quando leio ou oiço o cruel linchamento político e de personalidade desta honorável e valente. Causa-me alguma perplexidade que os analistas políticos e a opinião pública não tenham captado que, tudo a que temos assistido, é um majestoso exercício de desapego em nome de uma superlativa e íntegra missão. JOACINE É UMA JÓIA DE MOÇA. A personagem que se obrigou a interpretar é que é UMA BESTA! Um pouco de respeito, por favor!

Aníbal Cardona
Consultor/Formador

*O autor deste artigo acha que o novo acordo ortográfico parece que é uma farsa.

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Engenheiro Técnico Agrário pela Escola Superior Agrária – IPB – Beja. Licenciado em Segurança e Higiene do Trabalho e Mestre em Gestão Integrada da Qualidade, Ambiente e Segurança pela Escola Superior de Segurança, Tecnologia e Aviação – ISEC – Lisboa. Foi durante mais de uma década responsável de Departamento da Qualidade, Ambiente e Segurança em diversas empresas. É consultor e formador em Sistemas de Gestão. É Professor Adjunto Convidado na Escola Superior de Tecnologias da Saúde de Coimbra. Foi prelector / moderador em diversos congressos, seminários e work-shops sobre a temática da Segurança e Higiene do Trabalho e Gestão da Qualidade. É autor e co-autor de diversos artigos científicos publicados na área da Saúde Ocupacional. Desempenha actualmente as funções de vereador da Câmara Municipal de Pombal.