Nuno Mika: de Abiul para o incrível mundo dos ‘new media artists’

0
1955

Os trabalhos de Nuno Mika, na área dos new media arte, já foram apresentados em países como Canadá, Rússia, Holanda, Espanha, Itália e Portugal. Depois de estudar áreas tão distintas como electromecânica, música, ou arquitectura, o jovem, com raízes na freguesia de Abiul, começou a desenvolver instalações artísticas interactivas, com recurso à luz e som, que criam um ambiente único onde o espectador se vê envolvido pela própria arte.

Quando o questionam sobre o tipo de trabalho que desenvolve enquanto new media artist, Nuno Micael Barros costuma brincar: “nem eu próprio consigo explicar o que ando a fazer”. Vamos tratá-lo por Nuno Mika, como é mais conhecido. E antes de referir que teve a sua primeira experiência artística “debaixo de um foguetão real, numa Praça de Moscovo”, perante milhares de pessoas, “num dos festivais mais importantes de vídeo mapping, do mundo”, no Circle of Light Art Vision, em 2014, é importante explicar o que é isto da new media art e do vídeo mapping.
Se por um lado a arte do vídeo mapping trabalha “ uma técnica que consiste na projecção de vídeo em objectos ou superfícies irregulares, tais como estruturas de grandes dimensões, fachadas de edifícios e estátuas”, explica o jovem de 30 anos, o conceito de new media art explora “obras criadas com recurso a novas tecnologias de mídia”, que incluem “arte digital, computação gráfica, arte virtual, animação produzida por computador, robótica, arte interactiva, videogames, arte ciborgue e arte como biotecnologia”, e que procura interagir com os próprios espectadores.

“Foi na ETAP que tive o primeiro contacto com a electrónica e com o mundo das tecnologias industriais”

Nuno Mika, filho de pais emigrantes, fixou-se na freguesia de Abiul aos seis anos, com a família. O percurso académico regular foi feito no concelho, e frequentou “o curso profissional de Electromecânica na Escola Tecnológica, Artística e Profissional de Pombal”. Na altura optou pela área para “fugir da construção”, negócio desenvolvido no seio familiar. O curso “nunca o cheguei a acabar”, no entanto, “foi na ETAP que tive o primeiro contacto com a electrónica e com o mundo das tecnologias industriais”. Em busca de novas experiências decidiu que afinal o mundo da construção poderia ser um caminho interessante de percorrer e mudou-se de malas e bagagens para Lisboa, onde frequentou o curso de Arquitectura… e onde descobriu o incrível mundo novo das tecnologias.
“Tive a sorte de frequentar um curso em que os professores estimulavam muito a criatividade e a parte de investigação”, e se na ETAP “tinha sido o pior aluno”, no curso de arquitectura “passei a ser um dos ‘melhores’”, o que lhe permitiu fazer a primeira apresentação ao público, de um trabalho realizado com recurso a novas tecnologias, em Moscovo, na Rússia, depois disso “representei a faculdade, em Madrid, num concurso de inter-universidades e posterior tive a oportunidade de visitar a Bienal de Arquitectura de Veneza”, em Itália, e quando regressou, “cheio de estímulos”, pediu uma sala “só para mim” onde conseguisse desenvolver ideias, pesquisar novos conceitos e perceber até onde ia a sua criatividade. “Os professores perguntavam-me o que andava a desenvolver, e eu continuava sem saber o que dizer, porque não conseguia explicar os estímulos”, no entanto “como tinham confiança em mim, deixaram-me desenvolver o meu trabalho livremente”. Vários anos passaram, e Nuno Mika continua ligado à área da investigação e de produção de conteúdos inovadores. Pelo caminho já apresentou obras em vários pontos do globo, como Canadá, Holanda, Espanha, e Itália, e em várias cidades nacionais. Em Lisboa está envolvido num projecto, o Temp Studio, que junta três dezenas de artista oriundos de várias partes do mundo para uma residência artística, onde se criam novas formas de arte, partilham experiências e se trocam conhecimentos.

“A cultura dos new media art está a ser cada vez mais promovida”

“A cultura dos new media art está a ser cada vez mais promovida, há cidades a apostar em festivais do género, e vejo que já se produzem trabalhos com muita qualidade”, no entanto, e apesar de ser um homem do mundo, Nuno Mika lamenta que o concelho de Pombal ainda não tenha seguido as “pisadas de municípios como o de Loulé, onde estive recentemente a participar no Festival Luza, Cascais, Sintra, Braga, ou Castelo de Vide”, até porque o conceito é “relativamente simples e pode ser livremente adaptado a qualquer espaço ou cidade”.
Nas obras criadas pelo artista pombalense, há a peculiaridade do “espectador se sentir envolvido na própria performance”, ou seja “a pessoa é convidada a interagir com a peça, tornando-se também parte dela”. E para quem ainda não conhece o trabalho de Nuno Mika, pode sempre espreitar o vídeo-clip da música “Bastion” da banda pombalense The Year, “produzido e filmado na Praça de Touros de Abiul”, um dos “espaços mais icónico do concelho”, e que para o arquitecto tem “um potencial enorme”.
“A planta do edifício revela uma identidade exclusiva”, totalmente circular, e “que foi criado pelo povo e para o povo”. Nuno Mika prefere não “comentar a utilização que é feita do espaço”, no entanto admite que “é preciso olhar para aquele local e perceber que tem um potencial enorme e a capacidade de acolher projectos inacreditáveis”. Quem sabe um dia não vemos aquela praça cheia de luz, cor e sons, ao ritmo da evolução tecnológica.