O sol nasce cedo, e com ele cresce o buliço: é preciso carregar os animais. O calendário marca 14 de Junho, é dia de ‘Feira dos 14’, no Castelo, freguesia de Vila Cã. As movimentações começam pela madrugada: é preciso chegar cedo.


Faltam alguns minutos para as 7h00, e ao Mercado do Gado chegam camionetas carregadas de animais, vindos de vários pontos do concelho, ou dos concelhos vizinhos. No Castelo cheira a terra fresca e a palha, o balir de ovelhas, carneiros e cabras vai interrompendo os negócios: os compradores regateiam e os vendedores não querem perder muito, ainda assim, “às vezes é preciso ceder”, conta António Silva, negociante de gado.
Para o produtor, “esta feira já teve um papel muito importante para o negócio, mas de há uns anos para cá”, com a implementação das novas leis de comercialização de gado vivo, “as coisas mudaram muito: as pessoas deixaram de vir ao Mercado”, e justifica com “todas as burocracias exigidas”, que afirma “desmotivar os possíveis compradores”. Actualmente “é preciso ir buscar guias de comercialização e guias de transporte, os animais têm de estar devidamente registados, é preciso condições de transporte e outras coisas que fazem com que os interessados acabem por adquirir animais de outras formas”, mais próximas, “por vezes a vizinhos ou conhecidos”, o que torna a transacção muito mais simples, ainda que por vezes “se compre um pouco mais caro”.
Também Maria da Conceição, visitante, lamenta “ver o que foi esta Feira e ver como está: antigamente era uma alegria, havia muita gente e muitos comerciantes, havia camiões de gado e feirantes por todo o espaço”, actualmente “são poucos os que ainda marcam presença, e a maior parte das vezes nem fazem nenhum negócio”, relata enquanto aponta para um carneiro de porte imponente: “acho que já deve ser a terceira ou quarta vez que este animal está aqui, as pessoas não compram”, relata.

“São poucos os que ainda marcam presença, e a maior parte das vezes nem fazem nenhum negócio”

O encontro com amigos, as conversas animadas e as histórias que se relembram acaba por ser uma motivação extra para não deixar de frequentar aquele local, “apesar do negócio estar fraco, este acaba por ser um ponto de encontro para muitos”, e com uma conversa aqui e outra ali, “os negócios acabam por ir surgindo”.
José Carlos, negociante, corrobora com as restantes opiniões e diz que a burocracia exigida para o controle de cada animal faz com que os pequenos criadores não resistam por não possuírem “marca de exploração”. O mercado de gado abre todos os meses, a dia 14, a partir das 7h00 e prolonga-se nos dias mais demorados até ao final da manhã. Para além dos ovinos e caprinos, há ainda um espaço dedicado aos pequenos animais, como galinhas e coelhos, por ali a história repete-se: “hoje não vendi nada”, lamenta uma das comerciantes. Fica o convívio com os restantes frequentadores da ‘Feira dos 14’.
O mercado do gado do Castelo integra a estratégia da associação de desenvolvimento Terras de Sicó para a criação de uma rede de mercados de gado, tendo para o efeito beneficiado de uma candidatura ao Programa de Desenvolvimento Rural (PDR 2020). A ideia passa pela criação de mercados de gado no território que abrange seis municípios que rondam o maciço da Serra de Sicó – Alvaiázere, Ansião e Pombal, no distrito de Leiria, e Condeixa-a-Nova, Penela e Soure, no distrito de Coimbra -, prevendo-se a criação de um no Rabaçal (Penela), para servir este município e ainda os de Condeixa-a-Nova e Soure. Um outro ficará localizado em Almoster (Alvaiázere) para servir também Ansião.

“O objectivo é facilitar aos produtores com menos capacidade”

Assim, a Associação Terras de Sicó está a construir dois mercados de gado em Almoster (Alvaiázere) e no Rabaçal (Penela) que, juntamente com o já existente em Vila Cã, pretendem “melhorar as condições das pessoas que têm rebanhos”, revelou Luís Matias, presidente da associação, por altura da XI ExpoSicó, que se realizou em Ansião, a 18 e 19 de Maio.
“O objectivo é facilitar aos produtores com menos capacidade de acesso aos mercados uma oportunidade de negócio em que a associação facilita a ligação e a proximidade entre o produtor e o consumidor final”, adianta. Para o autarca, a “iniciativa implica ter uma estrutura de funcionamento para a criação de mercados nos municípios que fazem parte da Terras de Sicó com produtores de todos eles”, destacando que se trata de uma “forma de incentivar o sector agrícola e seus produtores”.
Para Luís Matias, este “é um projecto importante uma vez que permitirá revitalizar uma prática que se perdeu ao longo dos tempos devido às alterações legislativas e regulamentares, obrigando os pequenos produtores a deixar de procederem a esta venda nos termos em que estes mercados ocorriam”, remata.