Machada reviveu ‘Serração da Velha’

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A Serração da Velha é uma antiga tradição popular, integrada nos rituais de passagem, ligada ao simbolismo da regeneração e renovação. Esta antiquíssima tradição subsiste em muito poucas localidades Portuguesas (e em algumas também no Brasil), e em algumas regiões é o desfile de boneco até ao local onde vai ser serrada. Na Machada a tradição continua viva e na ‘Quarta-feira de Cinzas’ o ‘velho’ foi serrado.

A “Serração da Velha” consiste na encenação do julgamento e condenação á morte de uma velha. Esta tradição com uma forte componente social tem a particularidade de ser interpretada apenas por homens. A “Serração da Velha” realiza-se tradicionalmente durante a Quaresma, mais precisamente na quarta-feira de Cinzas e á semelhança de outras tradições do Norte de Portugal como o “Enterro do Bacalhau” e a “Queima do Judas” têm provavelmente origens comum, assentando na mudança de estação do Inverno para a Primavera, simbolizando a luta do dia e da noite, da luz e das trevas ou a morte do Inverno. Na Machada a tradição continua viva, e mesmo tendo “menos homens a participar, ainda temos um grupo de 18 ou 19 que dão continuidade a esta tradição”.
A origem deste culto, vem de trás, de décadas e décadas passadas, e provavelmente tem “um historial ainda mais rico, mas que já não nos é possível ir buscar”, uma vez que “as pessoas mais antigas, que tinham essas histórias para contar já não estão entre nós”, e os das gerações seguintes também já não se lembram bem das coisas”, ainda assim “tentamos recriar a ‘brincadeira’ da forma mais sérias e o mais parecido possível com as lembranças que temos”, explica Manuel Sousa, mentor da recriação.
Mas se há passagens que devem ser mantidas, no meio da tradição há espaço para a inovação e desta forma, o organizador ousou lançar-se ao desafio, e criou uma ‘velha’ diferente, “mais moderna, mais fácil de transportar”, e amiga do ambiente, uma vez que o projecto foi produzido, integralmente, com recurso a materiais reciclados e reaproveitados. Em forma de urna, com um manequim lá dentro, cheio de pormenores que levam os mais astutos a perceber de imediato de quem se trata a personagem ‘serrada’.
“As pessoas da aldeia continuam a gostar muito desta tradição”, e como tudo é preparado durante a noite, o organizador admite que “há quem saia de casa mais cedo, logo pela manhã, só para ver quem foi serrado”, e na hora de ir comprar pão fresquinho à padaria, “acaba por se juntar logo um grupo grande de pessoas pela manhã”, e assim é uma forma de começar o dia, com boa disposição.
Para além desta tradição, seguramente, secular, Manuel Sousa explica que o grupo mantém também o Cantar das Almas, uma tradição popular católica secular. Este cantar, que se faz de porta em porta pela noite adentro, tem como principal objectivo o de “pedir ao Senhor pelas Almas do Purgatório, no momento em que é feito e, também, com a angariação de fundos para celebração de missas pelas mesmas almas”. Na noite de 27 de Março, o grupo, composto por 18 homens, percorreu algumas casas do lugar de Folgado, ora cantando, ora pedindo esmola para as “Almas Santas”.

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Nasceu em 1985, estudou Comunicação Social na Escola Superior de Educação de Coimbra e participou num curso de formação em Jornalismo e Crítica Musical. Passa os dias a ouvir música, adora assistir a concertos e sonha viajar pelo mundo com uma mochila às costas.