Jovem médico pombalense realizou missão de voluntariado em Moçambique

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Válter Santos, de 29 anos, acaba de regressar de Moçambique depois de ter passado cerca de um mês em missão naquele país africano. O médico pombalense, interno no Centro de Saúde de Pombal, da Unidade de Saúde Familiar Marquês e do Centro Hospitalar de Leiria, retrata a experiência e assume o desejo de “continuar a contribuir” para ajudar “quem precisa em situações de carência absoluta”.

Cinco meses após o ciclone Idai ter fustigado o centro de Moçambique, o cenário continua a ser de “completa destruição” naquele país africano. Assim testemunha o médico pombalense, Válter Santos, que acaba de regressar da Cidade da Beira, onde esteve, durante um mês, a desenvolver uma missão de voluntariado, apoiada pela Cruz Vermelha Portuguesa.
O jovem de 29 anos conta que esta não é a primeira missão na qual participa, no entanto “de menor dimensão e espaço temporal mais curto”, que realizou “durante o meu percurso académico”. Desta vez. A “oportunidade surgiu enquanto voluntário da Cruz Vermelha Portuguesa, delegação de Coimbra, tendo sido solicitada a minha colaboração como médico para a última rotação de equipas na Beira”, no sentido de ingressar na “Missão Embondeiro”.
Quando o convite surgiu, “a minha reacção foi de alegria e agradecimento por poder colaborar e contribuir com aquilo que sei fazer melhor e pela confiança depositada em mim”, revela o médico interno no Centro de Saúde de Pombal, da Unidade de Saúde Familiar Marquês e do Centro Hospitalar de Leiria. Por outro lado, o jovem assume algum “receio do que iria encontrar”. A família, essa, “reagiu como qualquer outra: com preocupação por me deslocar para outro país com as condições que Moçambique apresenta”, mas garante que “apoio” não lhe faltou.
Quando aterrou em Moçambique, Válter Santos reparou de imediato “nas letras a identificar o aeroporto da Beira totalmente destruídas”, uma imagem que viria a “demonstrar o estado geral das estruturas” naquela cidade, e que o alertaram de “imediato para destruição”, conta.
Assumindo que levava consigo algumas expectativas em relação ao cenário que iria encontrar, o jovem admite que a “a realidade correspondeu, até pela descrição de outras pessoas que lá haviam estado, a uma situação complexa em termos de acesso aos cuidados de saúde, mas muito mais difícil ainda em relação às necessidades básicas de toda população que não estão supridas”. O médico fala da “falta de condições habitacionais, de higiene, de água potável”, entre outras, que colocam “em causa o normal estado de saúde da população”.

O “ciclone Idai só foi agravar toda a circunstância de infra-estruturas que já era difícil”

Para Válter Santos, o “ciclone Idai só foi agravar toda a circunstância de infra-estruturas que já era difícil”, tendo vindo a “aumentar o risco de doenças transmissíveis ao deteriorar as condições de higiene e ao permitir o acúmulo de águas paradas”, esclarece, enquanto reforça que “a equipa que acompanhei permitiu superar todos receios ou preocupações surgidas durante a missão”.
A frequentar um doutoramento em Medicina e Cirurgia, Válter Santos revela que os casos mais comuns que encontrou naquele país africano “são os de parasitoses resultantes da falta de higiene, traumatismos resultantes do Idai, que apresentam ainda feridas em tratamento, doenças crónicas, que muitas vezes o próprio hospital da Beira não apresentava condições para solucionar e doenças crónicas como a diabetes e a hipertensão”, que segundo o especialista “ainda não são rastreadas e tratadas na Beira”. Por outro lado, “apresentavam-se muito, na área da maternidade a que dávamos apoio, todas as situações associadas à criança recém-nascida: desde os problemas mais comuns, até nascimento em paragem e consequente reanimação por parte da equipa”.
Segundo o testemunho de Válter Santos, “as maiores dificuldades associam-se à falta de condições e equipamento, mas também formativas”, sendo que a “formação base dos profissionais de saúde é parca e muito resultante da prática diária para a resolução, sem muito pensamento dedutivo ou técnico científico”. Pelo que “há muita falta de cuidados diferenciados e personalizados”, onde “os doentes são praticamente tratados empiricamente”, conta.
O pombalense conta, ainda, que por aquelas paragens o “dia-a-dia é diferente todos os dias”. Como responsável clínico durante um período da missão, e responsável pelos cuidados de saúde a todos os elementos missionário da federação do crescente vermelho e sociedades da Cruz Vermelha, “tinha uma responsabilidade acrescida e, portanto, os dias variavam consoante as necessidades: ora numa reanimação neonatal na maternidade, ora numa intervenção médica num adulto, mais complexa, ou no auxílio a missionários da Cruz Vermelha internacional”.
Chegado recentemente a terras do Marquês, o jovem médico admite que trouxe consigo um “sentimento de dever cumprido, por um lado, e de que falta tanto por fazer, pelo outro”. Para Válter Santos, “é uma sensação de missão inacabada e, claro, isso eleva o meu desejo de realizar novas missões”. Desta forma, o jovem de 29 anos revela o “desejo” de continuar a “contribuir com o meu trabalho para ajudar quem precisa em situações de carência absoluta”, remata.