Há pombalenses que brilham “lá fora”

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Têm raízes em Pombal, mas são cidadãos do mundo. Têm nacionalidade portuguesa, mas gostam de viver na era da multiculturalidade. São jovens, e como todos os jovens, têm um mundo de sonhos dentro deles. Procuram novas formas de se afirmar. Apostam na formação, mas dão-lhe seguimento com o esforço e a dedicação que todos os projectos merecem. Se achamos que Pombal não está bem representado no mapa, então conheça os exemplos de Pedro Neto, um Consultor na Comissão Europeia, a viver no Luxemburgo, de Marco dos Santos, que trocou o Travasso pela vida de arquitecto em Zurique, ou de Nuno Silva, que corre as principais montanhas europeias, em busca da adrenalina que o Skyrunning lhe oferece: e é um dos melhores.


Pedro Neto: de Vermoil para a Comissão Europeia
No dia em que partiu para o Luxemburgo tudo parecia correr mal: a TAP (Transportes Aéreos Portugueses) criou-lhe problemas. “Era meio de Agosto, e estive mais de duas horas na fila no aeroporto de Lisboa para deixar a mala”. Quando finalmente chegou a sua vez, “já estava o porão do avião fechado”, teve que deixar tudo em Portugal. Já dentro do avião, “e devido a um problema” a partida foi atrasada mais de uma hora.
Pedro Neto seguiu para o seu destino com a roupa que tinha no corpo, um telemóvel no bolso e a carteira. No dia seguinte, “na segunda-feira, tinha que me apresentar na empresa”. Diz que se desenrascou “à boa moda portuguesa”, como o comércio, no Luxemburgo, está fechado ao domingo, recorreu a uma loja no aeroporto e comprou roupa e “produtos de higiene numa Estação de Serviço”. A bagagem chegou… uma semana mais tarde. Mesmo com os primeiros passos a correrem de forma diferente, o engenheiro informático de Vermoil, Pombal, não se deixou intimidar. Passados quatro anos, e muitas outras histórias, o jovem ocupa um cargo de Arquitecto de Software, onde tem “basicamente, de aconselhar a Direcção de Informática da Comissão Europeia em questões técnicas relacionadas com o desenho e implementação de plataforma” informáticas.
Com raízes bem assentes em Vermoil, Pedro Neto licenciou-me no Instituto Politécnico de Leiria, mas foi em Lisboa que deu os primeiros passos como profissional. Estagiou num “projecto com grande visibilidade na altura”, relacionado com a reformulação do Portal das Escolas, em 2008. Seguiu para a Novabase, onde esteve “inserido num projecto muito interessante relacionado com a reestruturação do sistema informático de uma Concessionária de auto-estradas em Portugal”, mas, apesar de não pertencer “à geração Erasmus”, “decidi que queria ter uma experiência internacional”.

“A multiculturalidade foi algo que sempre quis”
Apesar de nunca ter estado “exposto à multiculturalidade, foi algo que sempre quis” e a nível financeiros, “a proposta luxemburguesa era irrecusável, mesmo tendo em conta o nível de vida de um consultor especializado já com alguns anos de experiência em Lisboa”. A decisão não foi fácil, “até porque tinha acabado de ser promovido”, mas a vontade de crescer falou mais alto. Em 2013 ingressou na eProseed, uma empresa com sede no Luxemburgo, mas com “escritórios no Porto, em Beirute (Líbano), em Utrecht (Holanda), em Sidnei (Austrália), no Dubai (Emirados), em Londres (Reino Unido), em Palo Alto (nos EUA), ou em Riade (Arábia Saudita)”.
De 2014 a 2016 esteve “como responsável pelo desenho e implementação de uma solução de Extracção e Tratamento de Dados (ETL) feita à medida para um parceiro que fornece serviços financeiros à gestão de Fundos de Investimento” e desde Fevereiro deste ano que desempenha a função de “Consultor na Comissão Europeia”, na Direcção de Impostos e Alfândega (TAXUD), em Bruxelas.
Pedro Neto conta que “A Comissão Europeia precisava de alguém para as tarefas que estou a fazer no momento, e, como o projecto é bastante interessante e eu sempre quis ter a experiência de estar na Comissão Europeia, aceitei o desafio”. Actualmente integra “uma equipa que é responsável pela implementação de uma plataforma de troca, entre Estados Membros, de informação confidencial relacionada com impostos e importação alfandegária. É um projecto de dezenas de milhões de euros, baseado em tecnologia Oracle, que está previsto entrar em funcionamento no final de 2017”.
De Portugal, e de Pombal, sente “falta da família”, e do clima mais temperado, “mas o facto de ter condições económicas para fazer férias no estrangeiro três ou quatro vezes por ano acaba por diluir esse efeito”. Sem data marcada para o regresso, afirma que “Portugal não está nos meus planos a médio/longo prazo, mas é bastante provável que emigre para outro país num prazo de quatro ou cinco anos”.
E para os que tencionam aventurar-se por outras paragens, Pedro Neto deixa um conselho: “não há que ter medo. Há que ter confiança em si próprio, dedicação no que se faz e vontade de experimentar”.


Marco Santos: do Travasso para Zurique
Com duas licenciaturas na pasta, Marco dos Santos é um exemplo da “Geração Erasmus”, enquanto estudante, participou no programa que o levou a conhecer a Kimenlaskson Polytechnic, Kouvola, na Finlândia. Estudou Design na Escola Superior de Artes Aplicadas e posteriormente frequentou o curso de arquitectura na Universidade Lusíada de Lisboa, é “muito interessado na representação do desenho e na criação espacial”, tanto que iniciou a carreira como desenhador, trabalhou e estudou simultaneamente, “o que ajudou bastante na sua aprendizagem”, estagiou com a arquitecta Inês Cortesão, em 2008 e com quem estabeleceu “uma colaboração de anos”. E foi o “seu primeiro grande contacto com o mundo da sensibilidade artística e cultura arquitectónico”. Em 2010, enquanto estudante de arquitectura, trabalhou em “de diferentes tipos e escalas, espaços religiosos, escritórios, casas e hotéis, em cidades como Lisboa, Porto e Doha”, mas foi em 2015 que optou por dar mais um salto, numa carreira quem tem vindo a ser pautada de sucessos.
Em Londres “iniciei uma colaboração com a Jump Studios”, com colaboração na “Google Campus em Telavive, Saatchi & Saatchi em Londres, Tottenham HFC em Londres, escritórios em Barcelona entre outros”, e no seu ponto de vista “quem pretende ter uma carreira profissional internacional uma das paragens deve ser Londres, por tudo o que a cidade representa”. Por ser “uma cidade mutante, onde chegam e partem diariamente cidadãos de todo o mundo, e todos procuram algo em Londres, isso acaba por identificar e caracterizar a cidade”. Marco dos Santos, e a namorada, que meses mais tarde acabou por se juntar a ele nesta aventura que passou a ser feita “a dois”, decidiram que precisavam de rumar a outras paragens para encontrarem o equilíbrio que necessitavam: a multiculturalidade, boas condições profissionais e a estabilidade. Pensaram em “Estocolmo, Copenhaga ou Zurique”. Acabaram por se decidir pela última opção, Zurique, “por uma questão de logística e oferta profissional”.

“Zurique tem uma grande experiência humana em receber emigrantes”
O casal acredita que aqui a vida é “mais calma, digamos que é a cidade com o pensamento e vivencia mais nórdica do Sul da Europa, uma cidade com uma escala perfeita e muito completa”.
Já na Suíça a adaptação foi “melhor que o esperado, Zurique é uma cidade multicultural e tem uma grande experiência humana em receber emigrantes”, os jovens até foram “recebidos nos Paços do Concelho no dia da “recepção ao emigrante” o que cria uma imagem positiva a quem chega”.
Para o jovem de 34 anos, o enriquecimento cultural é uma das peças chaves no meio desta equação, “acabas por colher algo mais do que trazias, e também se acaba por sentir a Portugalidade de uma forma mais positiva”, até porque este arquitecto do Travasso acredita “que não se deve sair do país apenas por questões financeiras”, para ele “devemos ter sempre em conta a experiencia e o conhecimento que podem vir a ter, tanto no contexto profissional, como pessoal”.
Não nega as saudades da família, e dos amigos, que visita duas ou três vezes por ano, nem esconde as “saudade do meu Benfica”, mas e voltar? “Não está nos planos”, ou pelo menos não está nos planos para os próximos anos. E porque estamos em modo “Bodo”, Marco dos Santos faz “questão de estar presente”, porque no fundo sabe que “é aquele momento do ano em que aproveito para ver e rever amigos e colegas”. Vão estar todos no Largo do Arnado: “lá os espero!”


Nuno Silva: do Reguengo para o alto de Mont Blanc
Se após ter desistido da modalidade de futebol, ganhámos um campeão nacional de Ultra Trail, será que podemos dizer que se perdeu um grande futebolista? Não vamos descobrir, mas descobrimos um grande atleta.
Nuno Silva passou por algumas equipas de futebol a nível distrital, no entanto “a equipa acabou e ainda procurei outros clubes”, na altura o curso de Engenharia Mecânica roubava-lhe tempo e teve mesmo que desistir. Passou seis meses sem ter qualquer contacto com o desporto e deu por si “aborrecido” com a vida. “Comecei a correr à noite, duas vezes por semana, um circuito com cerca de 10 quilómetros”, ando nesta brincadeira durante três anos: “nem sequer pensava em provas”. Depois, e por influência de um amigo, “experimentei o BTT”, mas a “bicicleta era fraca” e foi até ela “aguentar”. Voltou às corridas e, em 2008, participou na primeira prova: “a Meia Maratona de Pombal”. Fez mais umas provas, e até se enganou em percursos, mas foi quando experimentou correr no Circuito Nacional de Montanha é que percebeu que “estava ali uma coisa que gostava mesmo”. Os percursos eram em estradão, alcatrão e tinham curtas distancias, o que o levaram a experimentar a modalidade de Trail. Inscreveu-se, em 2010, no I Trail Terras de Sicó, em Condeixa-a-Nova, “na prova de 30 Km” e deu o primeiro passo para os cenários naturais mais encantadores, e míticos, do país e da Europa.
A procura por este tipo de provas intensificou-se, e a curiosidade também. Nuno Silva começou a procurar mais informação sobre a modalidade, começou a estudar técnicas, a pensar os percursos com antecedência, e obteve resultados tão entusiasmantes que a marca Berg Outdoors começou a patrocinar o atleta do Reguengo, equipando-o com o material que as provas exigem e com uma ajuda financeira que lhe permite “participar em provas internacionais”, caso contrário “era impossível continuar a participar em provas desta dimensão”, e apesar do material nem ser “muito caro”, as deslocações e a preparação para as provas pode ser “um peso enorme num orçamento” mensal.
[entretítulo] “Treino seis, ou sete, dias por semana”

Sem treinador, o jovem de 33 anos, treina “seis, ou sete, dias por semana”. De Segunda a Sexta opta por treinos mais curtos – só para esticar as pernas –, e aos fins-de-semana faz uma “corridinha” de 50 quilómetros. Os treinos rigorosos, e a exigência que tem consigo próprio já o levaram ao pódio de muitas provas. Já correu nos Açores e na Madeira, em Barcelona e no País Basco. Actualmente prefere o “skyrunning”, um desporto que “nasceu enquanto circuito de provas em alta montanha, acima dos 2000 metros”. Mais tarde, a Federação Internacional de Skyrunning (ISF) decidiu integrar no seu âmbito todas as provas realizadas em montanha, mesmo naquelas que não atingem tais altitudes. Já se apaixonou pelos trilhos de Mont Blanc, e também se zangou com eles.
Em Fevereiro, desde ano, Nuno Silva venceu III Maratón de Montaña “A Camelia”, prova de ultra trail que se realiza em Vedra, na Galiza, alargando o seu palmarés de provas internacionais. Imagine-se: o atleta da Berg Outdoor percorreu o percurso de 47 km e 1 900 metros de desnível positivo em apenas 4 horas, 12 minutos e 24 segundos, deixando no segundo posto o espanhol Victor Maneiro Freire, a quase 43 minutos.
O pombalense, actualmente patrocinado pela Prozis, Berg Outdoor e Scarpa, alcançou a melhor classificação portuguesa, de sempre, na Liga Mundial de ultramaratonas Skyrunner, depois de terminar a competição de 2016 no 6º lugar. “A Liga Mundial de Ultramaratonas é um dos meus objectivos, por isso só me posso sentir estou feliz por ter conseguido conquistar um lugar nos dez primeiros”, em 2017, o objectivo mantém-se, garante. “Nada disto seria possível sem muito esforço e dedicação”, pelo menos é este segredo que guarda para o seu sucesso.