Diabéticos: da aceitação à adaptação

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A diabetes é uma doença crónica que se caracteriza pelo aumento da glicose, níveis de açúcar, no sangue, dando origem à hiperglicemia. Os níveis aumentados de açúcar no sangue devem-se à produção insuficiente de insulina, ou por actuação ineficaz da insulina e, em alguns casos, à combinação dos dois factores. A 14 de Novembro assinala-se o Dia Mundial da Diabetes.

Em 2014, um milhão de portugueses entre os 20 e os 79 anos tinha diabetes. Esta prevalência estimada consta do último relatório do Observatório Nacional da Diabetes (OND), publicado em 2015, e revela que a prevalência da doença era de 13,1% nessas faixas etárias. Da diabetes tipo 1 à diabetes gestacional, existem vários tipos, cada qual com características próprias.
No entanto, a diabetes tem vindo a atingir também cada vez mais crianças. “Antigamente era usual pensarmos que as crianças não tinham diabetes, mas hoje isso mudou, e sabemos que é frequente encontrar crianças que sofrem desta doença”, assinala Margarida Moreira, médica especialista em endócrinologia.
Esta condição pode apresentar-se em diferentes momentos, por diversas causas, no entanto a diabetes tipo 2 ainda é a mais falada. “Tipo 1, Gestacional, ou MODY – Maturity-Onset Diabetes of the Young”, também existem, “mas são menos comuns”.
Clinicamente, a Diabetes Tipo 1 surge quando o “pâncreas não produz insulina suficiente e o nosso sistema de defesa destrói selectivamente as células (células beta produtoras de insulina”. A doença surge, na maioria das vezes, “em crianças ou adultos jovens”, no entanto, “pode surgir em qualquer idade”, revela a especialista, e “o desenvolvimento da doença, qualquer que seja o tipo, costuma ser súbito e pode incluir sintomas como: sede excessiva e boca seca, cansaço, ter sempre fome, infecções sucessivas, visão turva ou urinar com muita frequência”.

“só se aprende com o tempo”

Diogo Santos, no espaço de “duas semanas” começou a “emagrecer muito”, e andava sempre “com muita sede”. Descobriu a poucos dias de celebrar 12 anos que sofria de diabetes tipo 1. “No início foi uma descoberta estranha”, não sabia do que tratava, nem tinha a noção de que era “para sempre”, no entanto “estive internado e durante essas semanas fui sempre acompanhado e preparado para todo o processo”, a equipa média e de enfermagem “ensinou-me a administrar a insulina, a medir a glicémia, a perceber sintomas”, mas o resto “só se aprende com o tempo”. Apesar de ter de administrar insulina cinco ou seis vezes por dia, o jovem de 26 anos, já vê o processo como “algo natural”. “É como lavar os dentes, ou ir à casa de banho, tem que fazer parte da rotina, e quando assim é passamos a ser diabéticos saudáveis”.

Andreia é diabética há 24 anos

Com 29 anos, Andreia Coelho já é diabética há 24. “Foi aos 5 anos que me foi diagnosticada a doença. Comecei a beber muita água e a fazer muito, muito, mesmo muito xixi”, o peso diminuiu drasticamente. Os pais decidiram-na levar ao hospital e “fiquei logo internada com valores de glicémia altíssimos”. Na altura “não custou nada”, ainda “era muito pequenina e por isso cresci com esta condição: sabia que não podia comer coisas com açúcar e tinha de levar uma “piquinha” todos os dias”. Na escola fez um percurso “bom”, e hoje em dia é enfermeira num grande hospital da capital. “Os professores eram muito compreensivos e deixavam-me sair da aula para ir comer se sentisse necessidade e os meus colegas perguntavam-me sempre se estava bem ou sem precisava de insulina”. Quando desmaiou a meio de uma aula de inglês, já “todos sabiam o que tinham que fazer”: ver os níveis de glicémia imediatamente.

“tinha 19 anos e senti todos os sentimentos negativos e de choque que podia ter sentido”

Se a adaptação para uns é mais fácil, para Joana Correia as coisas não foram tão fáceis “tinha 19 anos e senti todos os sentimentos negativos e de choque que podia ter sentido”, recusava a insulina, recusava assumir a doença e achava que era “tudo treta”, até que começou a “desmaiar dia sim, dia também!”. Agora com 27 anos, olha para trás e “percebo que foi uma birra de adolescente, que coloquei a minha vida em risco e que alguma da dificuldade que tenho em, por vezes, controlar os níveis de glicémia são tudo fruto dessa inconsciência”. Prepara-se para terminar o curso de Direito que frequenta na Universidade do Porto.
Se na Diabetes tipo 2 “Existem inúmeros tratamentos, sendo que o tratamento é sempre individualizado”, que “assenta nos cuidados alimentares, alteração do estilo de vida e fármacos adequados escolhidos pelo médico”. Na Diabetes tipo 2 apenas se fala na “Administração de insulina, alimentação equilibrada, prática de exercício físico, autocontrolo da doença e vigilância periódica”, explica a médica Margarida Moreira.
A endócrinologista fala ainda sobre os avanços da tecnologia como as “bombas infusoras de insulina que são pequenos aparelhos que permitem a administração de insulina por via subcutânea: são colocadas na barriga dos doentes) sendo que permitem um débito contínuo de insulina programado e também reforços às refeições” e que “aumenta substancialmente a qualidade de vida do diabético”, no entanto estes equipamentos “são muito caros”, e apenas poucos “têm acesso a estes tratamentos por via da comparticipação do estado”.
Os três jovens, Diogo Santos, Andreia Coelho e Joana Correia, aguardam “pacientemente”, que se “faça alguma coisa em relação a isso”, e que estes equipamentos sejam “mais acessíveis”, até porque não é “uma questão de mania, é pela qualidade de vida”.

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Nasceu em 1985, estudou Comunicação Social na Escola Superior de Educação de Coimbra e participou num curso de formação em Jornalismo e Crítica Musical. Passa os dias a ouvir música, adora assistir a concertos e sonha viajar pelo mundo com uma mochila às costas.