Dia dos namorados: o amor não tem idade

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Cheio de corações, flores, peluches, lingerie, bombons e jantares românticos: Aí está o tão aguardado dia de São Valentim – a altura do ano em que o romance anda no ar. A 14 de Fevereiro celebra-se o amor.

José Junqueira e Maria da Assunção voltaram a apaixonar-se depois da viuvez

Diz o dicionário que Amor, para além de ser um substantivo masculino, é também um “sentimento que induz a aproximar, a proteger ou a conservar a pessoa pela qual se sente afeição ou atracção”, pode tratar-se de uma intensa “atracção entre duas pessoas”, mas vai mais longe e define esta emoção como um acto de “grande dedicação ou cuidado”.
Costuma dizer-se que existem tantas formas de amar, quantas pessoas existem no mundo. É verdade. Definitivamente existem coisas difíceis de perceber. Esta é uma delas. Parece que a palavra amor anda a ser demasiado utilizada. Amo algodão doce. Amo aquela música dos Nirvana. Amo cor-de-rosa. Amo a minha melhor amiga, amo o meu amigo e amo o amigo do meu amigo…
E depois existe aquele amor que une duas pessoas durante uma vida inteira, e que os completa, os preenche, e por vezes por também chateia. José Gonçalves tinha 24 anos quando conheceu “o amor da minha vida”. Conta que foi numa “noite de Setembro”, no baile de uma aldeia próxima de Pombal. “Lembro-me que trazia um vestido azul – da cor do céu”. Maria Augusta Gonçalves tinha 20 anos, e estavam em 1954.
Volvidos quase 63 anos de uma relação “que teve muitos altos, e alguns baixos”, o balanço “não podia ser mais satisfatório: à excepção de algumas contrariedades da vida”, admite José. Namoraram “quase um ano”, casaram em Maio e construíram uma família de 2 filhos, e “cinco netinhos”. Em 2004 celebraram as bodas de Ouro, “numa festinha muito bonita, e muito simples, mas juntámos a família e celebrámos todos juntos”. Em jeito de confissão admite “que nem sempre é fácil: é difícil a adaptação ao feitio, o dia-a-dia pode ser martirizante, e até podemos acordar de mau humor”, mas assegura “que nunca gostei de adormecer chateado com a Augusta, custava-me”. Ao longo dos anos “acabámos por descobrir como funcionávamos, e habituámo-nos um ao outro: com tudo o que isso tem de bom e de mau”. Em Novembro de 2013 Maria Augusta sofreu um Acidente vascular Cerebral (AVC) que a atirou para uma cama, e lhe roubou a capacidade de comunicar através das palavras.
“Ela fala muito com os olhos”, segreda José Gonçalves. “Na altura foi muito difícil para mim aceitar esta condição: claro que tinha os seus defeitos, mas era uma pessoa muito boa, e muito amiga de todos. Não merecia”. Os filhos preferiam que Augusta fosse colocada numa residência sénior, “porque se calhar tinha um acompanhamento melhor”, mas garante: “enquanto eu tiver forças e capacidade para isso ela fica aqui comigo”. Penteia-a, dá-lhe as refeições, e conversa com ela, no resto: “tenho a ajuda de uma senhora que trata da higiene, faz a comida e organiza as coisas da casa”.
“Sei que ela faria o mesmo por mim, aliás não tenho qualquer dúvida de que o faria”, e para além disso “tudo o que consegui conquistar foi com a ajuda, e o apoio dela, por isso estou apenas a retribuir o amor que me deu”. Dos anos que passaram, José relembra “o nascimento dos filhos, que me marcou profundamente”, ou da “vida em África”. Sobre o amor: “é realmente uma coisa engraçada, e maravilhosa”, descreve.

“Nunca pensei em voltar a namorar”
Casou jovem e, por obra do destino, também ficou viúva nova. Na altura tinha uma filha com 12 anos e um menino com 2 anos. Passou uma vida “activa e muito dinâmica”. Foi professora de Francês no concelho vizinho de Leiria, mas “nunca mais tive um namorado, ou outro marido”. A perda “foi muito dolorosa, e acabei por me focar nos meus filhos”. Depois de se reformar regressou a Pombal, e foi nesta cidade que conheceu Manuel Junqueira.
“Na altura ia beber um cházinho com umas amigas da minha idade e ele também costumava estar na pastelaria: tinha um ar simpático e era sempre muito bem-educado”, conta Maria da Assunção. Chá aqui, e conversa ali, lá resolveram “conhecer-nos melhor”. Prestes a celebrar o 78.º aniversário, e o quarto de namoro, a antiga professora garante que “nunca pensei em voltar a namorar”, mas “tem sido bom: nesta altura é muito triste estar sozinho e não ter com quem conversar”. Os filhos “estão criados”, os netos para lá caminham, e “ainda me sinto com forças e com muita vida pela frente”.
José Junqueira não lhe fica atrás: tem vitalidade, também é viúvo, e “gostamos das mesmas coisas”. Apesar de “já não sermos novos”, o ex-empresário de 74 anos acredita que “temos todo o direito de namorar, os filhos dela apoiam, e os meus também”. Triste seria “andar por aqui sozinho”. Assim tem “companhia e carinho”, e os dias “até são mais bonitos”.

“Do seu Valentim”
O dia dos namorados, ou dia de São Valentim, como é chamado em alguns países, é conhecido pelo dia em que se trocam presentes e mensagens entre casais de apaixonados. Apesar de se gerar um comércio de milhões de euros em volta desta data, nem sempre assim o foi.
Reza a história que a 14 de Fevereiro se celebra a morte de São Valentim, mártir cristão que viveu durante o século III. Durante o governo do imperador Cláudio II, foi proibida a realização de casamentos no seu reino, Roma, com o principal objectivo de formar um poderoso exército de batalha. O imperador acreditava que os jovens se alistariam mais facilmente no seu exército se não tivessem família. No entanto, um bispo romano, Valentim, continuou a celebrar casamentos.
Apesar das cerimónias serem realizadas em grande segredo, a prática foi descoberta e Valentim foi preso e condenado à morte. Enquanto estava preso, muitos jovens enviavam bilhetes e flores ao bispo, demonstrando que apesar de tudo continuavam a acreditar no amor.
Entre as pessoas que atiravam essas mensagens de apoio a Valentim, estava uma jovem cega, filha de um carcereiro, Artérias, que conseguiu a permissão do pai para visitar o preso. Conta a lenda que os dois acabaram por se apaixonar e a jovem recuperou, milagrosamente, a sua visão.
Antes da sua morte, o religioso escreveu várias mensagens à sua amada, em que assinou “do seu Valentim”, criando aquilo que se tornaria o primeiro cartão de dia dos namorados. Valentim foi decapitado em 14 de Fevereiro de 270.