Diz-se na gíria que Fevereiro é o mês mais romântico do ano. A denominação parece estar directamente ligada ao Dia dos Namorados, que se celebra no dia 14 deste mês, no entanto existem outras razões para que o segundo mês do ano seja apelidado com tanto amor. O motivo estará também no segundo domingo de Fevereiro, data em que se celebra o Dia Mundial do Casamento. Este ano a efeméride celebra-se já este domingo, dia 9.
De forma a assinalar as duas datas de forma conjunta, decidimos contar-lhe a história de dois casais, que embora estejam, ambos, casados há mais de 50 anos, continuam a ser namorados, “todos os dias”.

Luísa e Fernando Roma: 55 anos de casamento “24 horas por dia”

Começaram a namorar a 17 de Fevereiro, corria o ano de 1958. Na altura, “não se falava no Dia dos Namorados”, no entanto a história de amor, e de vida, de Luísa e Fernando Roma, iniciou-se no mês mais romântico do ano.
Na altura com 16 anos, Luísa Roma tinha “vários pretendentes”, um em particular: “o Fernando costumava vir atrás de mim, e eu fugia”, mas depois de várias investidas “acabei por ceder”, namoraram “vários anos às escondidas”, até que “ele se encheu de coragem e foi pedir autorização aos meus pais para namorar comigo”. O pai disse-lhe “estima-a e respeita-a e respeita-nos a nós. Se boa cama fizeres, nela te saberás deitar”, palavras que nunca mais lhe esqueceram. A mãe foi contra durante algum tempo, mas acabou por aceitar a relação.
“O meu pai tinha uma padaria, e eu estava encarregue de ir ao banco depositar o dinheiro da semana, ou do mês. O banco, nessa altura, estava localizado mesmo junto ao Café Nicola, onde trabalhava o Fernando”. Foi durante essas visitas à instituição bancária que Fernando começou a reparar em Luísa: “ela era muito engraçadinha”, conta a sorrir.
Depois de sete anos de namora, onde se meteu a tropa pelo meio, Luísa e Fernando Roma deram o nó matrimonial a 25 de Abril de 1964, “10 anos antes da revolução”, mas foi nessa altura que se deu a maior revolução, com a chegada da vida a dois, “24 horas por dia”.
Na altura Fernando Roma era responsável pela gestão do Café Nicola e do Avenida, “mas queria fazer mais alguma coisa”, e foi então que decidiu inaugurar o restaurante São Sebastião, na zona do Travasso. No primeiro ano Luísa não trabalhou com o marido, mas depois deste perder o cozinheiro do restaurante, “agarrei a cozinha” e até chegou a “comandar mais de 15 empregados”. Naquela altura, “tudo o que era confeccionado passava pelas minhas mãos”. Revela que aprendeu com as “senhoras mais velhas, que utilizavam os fornos da padaria do meu pai para confeccionar os banquetes dos casamentos, na época”, e explica que “sempre fui muito curiosa, e sempre gostei muito da cozinha”, tanto é que passados todos estes anos Luísa Roma ainda faz questão de fazer o “almoço e o jantar para os filhos e os netos”, praticamente todos os dias.

“É muito importante que se ouça o outro, mesmo que por vezes não se concorde”

Em 1985 o casal decidiu lançar-se novamente à aventura e fundou o Belém Hotel, que celebra este ano o 35.º aniversário. Actualmente contam com o “apoio fundamental da filha”, Ana Roma, para dirigir os destinos daquele empreendimento.
Juntos há cerca de 62 anos, o casal admite que “agora é tudo muito diferente”, e até parece “que as pessoas já não estão tão disponíveis para fazer esforços dentro das relações”, um dos grandes segredos para “que as coisas corram bem”, e explicam que “é muito importante que se ouça o outro, mesmo que por vezes não se concorde”, porque “a comunicação é o principal aliado de uma relação saudável, feliz e duradoura”.
Mais recentemente Fernando Roma viu-se a braços com uma doença que o atirou para uma cadeira de rodas, e o obriga a efectuar tratamentos de saúde três vezes por semana. “Uma realidade a que nos fomos adaptando, ainda que difícil de aceitar”, no entanto “ele é um homem cheio de força e muito positivo”, pelo que “assumimos tudo com grande naturalidade”. 62 anos depois, o casal Roma fundou uma família com dois filhos, três netos e prepara-se para receber “um bisneto, que vem a caminho”.

Manuel Martins e Maria Gaspar: Do namoro por cartas até às bodas de ouro

Naturais do Barrocal, na freguesia de Pombal, Manuel Martins e Maria Gomes Gaspar frequentaram a mesma escola, mas na “altura os meninos tinham aulas da parte da manhã, e as meninas frequentavam a escola no horário da tarde”, por isso “já nos conhecíamos”, embora “não tivessem grandes confianças”.
Manuel dedicava-se a ajudar o pai, na área da construção civil. Começou aos 12 anos. Pelo caminho o pai sofreu um acidente, o que fez com que tivesse de assumir algumas responsabilidades extra. Pouco tempo depois foi a mãe que sofreu uma “queda para dentro de um poço”, que a fez ficar “cerca de nove meses no hospital, em Coimbra”. Na altura, o jovem “ia todos os domingos à cidade para a visitar”, tinha 17 anos, “não pensava em namoricos”. Mais tarde, começou a interessar-se por aquela que anos mais tarde viria a ser sua esposa.
“Namorava-se à porta de casa”, e sempre com o olho atento de algum, “porque as coisas na época eram muito diferentes do que são agora: havia mais respeito”, dizem em tom de brincadeira. Ou por carta, uma vez que Manuel Martins passou uma temporada a trabalhar em França. Passaram “cerca de três anos a namorar” nestes moldes, e só “regressou para casar”, tinha 24 anos.

“É preciso respeitar o outro, e não achar que ninguém é dono de ninguém”

“Os pais do noivo e da noiva pagavam a casa”, pelo que tiveram “alguma facilidade no início de vida”. A casa era modesta, e bem mais pequena do que é na actualidade, mas “chegava perfeitamente para nós”. Manuel Martins continuou na área da construção, e Maria Gomes Gaspar dedicou-se sempre à vida doméstica e familiar. Da união de cinquenta anos de casamento, nasceram três filhas, e “já temos cinco netinhos”. Quando “se junta a família toda é uma alegria muito grande”, porque “sentimos que fizemos um bom trabalho”. O casal não esquece as dificuldades, mas admite que “o respeito é a base de qualquer relação: seja de casamento, namoro ou amizade”. E lamentam que “por vezes estes princípios mais básicos se percam com alguma facilidade”. Na “nossa altura, o namoro servia para as pessoas se conhecerem”, e actualmente “as coisas não são bem assim: agora vemos que os casais fazem as coisas ao contrário, primeiro têm relações e só depois é que se conhecem”, e explicam que “no nosso tempo, só se pensava em ter relações quando já tínhamos o casamento marcado, ou muito próximo”.
Maria Gaspar assume “que entanto casal é normal que existam desentendimentos”, mas “é preciso respeitar o outro, e não achar que ninguém é dono de ninguém: cada pessoa tem a sua personalidade e os casais têm de ter essa capacidade de aceitação”. A pombalense admite que “nunca gostei de ir para a cama zangada com o Manuel”, e isso é “meio caminho andado para que haja paz e conforto dentro do lar”, explica.
A história deste casal foi contada pelos próprios, num espaço particularmente especial. Afinal, fomos recebidos no Museu Popular que Manuel Martins criou com peças que vai criando, ou reabilitando. Por ali pode ter-se um contacto com os usos e costumes de antigamente, uma vez que o espaço nasceu naquela que foi a casa da família de Manuel Martins. “Devido a vários problemas de saúde acabei por ficar com muito tempo livre e comecei a criar pequenas peças de artesanato”, actividade pela qual apanhou o gosto e que continua a praticar. Há terços feitos de caroços de azeitonas, garrafas decoradas com peças de madeira no interior, há ‘burricos’ de tamanho real, feitos em palha, e todo o mobiliário da altura, cuidadosamente preservado. Uma visita a não perder, até porque a simpatia do casal não deixa ninguém indiferente.

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Nasceu em 1985, estudou Comunicação Social na Escola Superior de Educação de Coimbra e participou num curso de formação em Jornalismo e Crítica Musical. Passa os dias a ouvir música, adora assistir a concertos e sonha viajar pelo mundo com uma mochila às costas.