DA ILUSTRE TERRA DO MARQUÊS | Os amanhãs que não cantam

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Ouvir os partidos da extrema esquerda reclamar um aumento do défice é surpreendente, irracional e incompreensível. Porque o aumento do défice significa o aumento da dívida, o empobrecimento do País, sobrecarregar as próximas gerações com a obrigação de pagar as dívidas que agora contraímos, para manter um nível de vida irrealista, acima das nossas possibilidades.
Demagogicamente, tenta-se transmitir a ideia de que a dívida pública está a diminuir. Para isso, apresenta-se o seu valor em função do PIB (Produto Interno Bruto, riqueza criada no País), ou seja o quociente entre o valor da dívida pública e o PIB. Como este, o denominador, está a aumentar, o resultado da fração diminui, apesar de o numerador ou seja o valor da dívida pública também estar a aumentar, embora menos.
Porque o problema é que, em valor absoluto, a dívida pública continua a aumentar. O valor relativo, o quociente atrás referido, tem visto o seu valor reduzido, pelas razões apontadas. Mas é o valor absoluto da dívida que temos que pagar e este continua a aumentar: em dezembro de 2017 era de 238.263 milhões de euros, em janeiro de 2018 de 238.760, em fevereiro era de 240.460 e em março de 241.073. Sempre a aumentar, sendo os aumentos mensais os seguintes: em janeiro 497 milhões, em fevereiro 1.700 milhões e em março 613 milhões de euros, o que dá uma média mensal de 937 milhões. Extrapolando este valor para 2018, resulta um valor anual de 11.244 milhões de euros e a dívida pública aproximar-se-á dos 250.000 milhões de euros no final de 2018.
Parece assim evidente a vontade de continuar a viver acima das nossas possibilidades, distribuindo parte da riqueza criada, por mérito dos trabalhadores portugueses, mas especialmente devido a uma conjuntura externa favorável, em que o preço do petróleo é baixo, as exportações e o turismo estão em alta, contribuindo para uma melhoria da balança comercial do País e as taxas de juro são baixas em relação ao que já pagámos, mas são bastante altas em relação aos países da Europa cujo exemplo queremos seguir, nomeadamente a Alemanha. É sabido que se alguns destes factores, incontroláveis pelo governo, tiver variações desfavoráveis, o efeito nas nossas contas pode ser desastroso e voltar às crises que já vivemos e onde, como sabemos, a velocidade de entrada é muito maior do que a de saída.
Sabemos, também, que se aproximam dois atos eleitorais. Apesar de ser só em 2019 (europeias em maio e legislativas em outubro), a caça ao voto já começou. O marketing político vai estar sempre presente no nosso dia-a-dia. Vendem-se ilusões, prometendo um futuro melhor, embora se saiba que a sua sustentabilidade não está assegurada. Aumentam-se as pensões meia dúzia de euros por mês e faz-se disto grande propaganda política.
Parece que o País ficou, de repente, muito mais rico e há muito mais dinheiro para distribuir. A tática eleitoral é evidente: distribui-se algum dinheiro pelas pessoas, porque são elas que votam. Mesmo que os sectores fundamentais tenham carências graves, como se tem visto na saúde, na educação, na segurança, que afetarão negativamente a nossa vida no futuro.
A esquerda controla a maior parte da informação e só saem as notícias que convêm. É uma espécie de censura, com lápis cor-de-rosa. Se o governo em funções fosse o anterior, agora ou nas tragédias dos incêndios do ano passado, a gritaria seria tremenda e a instabilidade social uma realidade. O mérito vai para António Costa que teve habilidade e capacidade para “amordaçar” os partidos à sua esquerda. Mas, estes já viram o modo como foram dominados e só não “quebram” agora a geringonça em que se meteram apoiando o PS, porque seriam eleitoralmente prejudicados.
Nos países comunistas em que o marxismo era a doutrina política, apregoavam-se os “amanhãs que cantam”, vendendo a ideia de que esse sistema traria a felicidade. O resultado, na realidade, foi totalmente contrário e, por isso, o sistema morreu.
Seria bom para este País que aos nossos filhos, netos e gerações seguintes, deixássemos amanhãs de alegria, de paz, de bem-estar, de progresso e de felicidade. Não podemos, nem devemos, fugir a esta responsabilidade.

manuel.duarte.domingues@gmail.com

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Natural de Viuveiro, Vila Cã, Pombal (1948), residente em Pombal. Licenciado em Controlo de Gestão pelo Instituto Superior de Contabilidade e Administração de Coimbra. Contabilista e Consultor de empresas desde 1977, Revisor Oficial de Contas desde 1993. Fiscal Único no âmbito do Ministério da Saúde de diversos Hospitais EPE, desde 2002. Professor do Ensino Secundário (EICP) e Superior (ISCAC e ISLA). Serviço público: Oficial Miliciano de Administração Militar, Membro da Assembleia Municipal de Pombal e Presidente da Assembleia de Freguesia de Vila Cã. Cargos exercidos em associações: Vice-Presidente da Direcção da AHBVPombal; Presidente Conselho Fiscal da AICP–Associação dos Industriais do Concelho de Pombal, da AHBVP, da Santa Casa da Misericórdia de Pombal e do Sporting Clube de Pombal; Membro da Comissão Revisora Contas da Fundação Rotária Portuguesa. Livros publicados: “DA ILUSTRE TERRA DO MARQUÊS…” – 1º Volume (2011, 2ª edição 2013); 2º Volume (2016), reunindo crónicas publicadas em jornais e revistas e outros escritos, destinando-se, integralmente, o produto da venda a Instituições de Solidariedade Social.