Cuidar de quem cuida. E de mim, quem cuida?

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Outubro é o mês dos Cuidados Paliativos, e este ano a Worldwide Hospice Palliative Care Alliance (WHPCA) escolheu o tema “Healing Hearts and Communities” – Curar corações e comunidades. Um tema que surge principalmente devido à pandemia Covid 19 em que muitos partiram sozinhos, sem o toque do seu familiar ou amigo, uma época de solidão para muitos doentes, família, cuidadores e profissionais de saúde. É certamente correto afirmar que muitos corações ficaram partidos e ainda buscam a sua cura.
Ao trabalhar em Cuidados Paliativos, a temática escolhida para este ano reúne ainda mais relevo. Nos Cuidados Paliativos falamos de quatro pilares básicos – comunicação eficaz, controlo de sintomas, apoio à família e trabalho em equipa. Como cuidar de quem cuida, quando este não pode estar junto do seu ente querido, não o pode tocar, não o pode consolar, sentir, amar ou simplesmente estar? Logo aqui a pandemia levou-nos um dos nossos pilares essenciais no cuidar em Cuidados Paliativos, levou e continua a levar com as restrições que se mantêm nos acessos aos cuidados de saúde, às visitas aos hospitais, lares ou unidades de cuidados (qualquer que seja a tipologia) para aqueles doentes mais complexos em fim de vida, em que a família perde a capacidade de cuidar e entrega o seu ente mais precioso ao profissional de saúde para cuidar.
Cuidamos de famílias e cuidadores em que as nossas melhores “armas” são a escuta ativa e a esperança, onde o compromisso de acompanhar e de estar disponível, seja o percurso curto ou longo, e no luto, é feito no primeiro contacto. Alguns dirão que é mais que suficiente ou melhor que nada, mas não deixa de ser frustrante que no nosso dia a dia percebemos que não é suficiente para alguns. Alguns precisam da nossa comunidade e da sociedade. Respostas escassas e que partem de esforços individuais, insuficientes para um doente e família que sofre por incapacidade de cuidar. Falo de coisas simples como acesso a ajudas técnicas e outras mais complexas, como o estatuto do cuidador informal.
Consolar aquele que tem de abrir mão do seu familiar, para que outro possa cuidar, não é tarefa fácil! O nosso silêncio ou o “não consigo ajudar” quando o pedido é para cuidar do seu familiar, mas tem de ir trabalhar para sustentar os filhos, ou a aquisição de uma ajuda técnica como uma cama articulada, não é fácil. Aqui chego ao título desta reflexão: e de mim quem cuida? Quem cuida dos profissionais de saúde?
Penso não ter resposta para estas perguntas, a não ser que temos de cuidar uns dos outros, trabalhar em equipa em união e compreensão. Afinal somos todos pessoas comuns à procura das mesmas respostas, com os mesmos problemas e com famílias também para cuidar.
Gratidão é a maior recompensa que tenho ao trabalhar em Cuidados Paliativos, não que a procure, mas ela vem diariamente ter connosco nos mais diferentes gestos e afetos por parte daqueles que cuidamos. E isto também é cuidar dos profissionais de saúde. É cuidar de mim!
Como cuidar e curar os nossos corações perante tantas dificuldades? Diria que é na persistência e na esperança, principalmente na esperança. Não sei se é a ingenuidade de quem ainda anda por aqui há poucos anos, mas aprendi a acreditar e a ter esperança, pois no pior momento da vida das pessoas vi o melhor delas e vivi a esperança, e é o que me move a mim e a minha equipa, na tentativa de curar corações e cuidar de quem cuida, na esperança que cuide de nós.

OPINIÃO: Catarina Faria, diretora do Serviço de Cuidados Paliativos do Centro Hospitalar de Leiria