Comunidade brasileira instala-se cada vez mais no concelho

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Há procura de “melhor qualidade de vida”, são cada vez mais os brasileiros, de todas as classes e perfis, que escolhem Portugal para se fixar. Em Pombal o cenário repete-se e a comunidade brasileira a residir no concelho tem aumentado substancialmente.


Tatiane Nabarrete, Roberto Rodrigues e o filho do casal, Fabrício Rodrigues, chegaram a Pombal há cerca de oito meses, no Brasil, pais de origem, viviam em Mato Grosso, uma cidade “com cerca de 170 mil habitantes”, com um ambiente totalmente diferente do que vieram encontrar em Portugal.
“Escolhemos Pombal porque o meu marido conhecia uma pessoa que já vivia cá, e que nos disse muito bem da cidade”, não se conheciam pessoalmente, “apenas através das redes sociais”, no entanto resolveram arriscar: “no Brasil a situação está muito complicada, há muita falta de segurança, e a situação financeira também é muito grave”, diz a jovem de 34 anos, enquanto explica que no seu país de origem desenvolvia actividade na área da contabilidade. Quando chegou a Pombal, percebeu que as “burocracias tornam o processo de integração muito mais penoso e demorado”, porque “as empresas exigem a documentação toda em dia, mas as entidades oficiais não nos dão um número de contribuinte sem que estejamos a trabalhar”, por isso é “uma bola de neve: a empresa não contrata porque não temos documentação, e as entidades não nos dão a documentação se não tivermos um emprego”, e compara aos “alunos que saem da faculdade e procuram o primeiro emprego, mas só encontram vagas onde é pedida experiencia profissional mínima”, ora então: “se não há experiência não há trabalho, mas sem trabalho não também não se adquire experiência”. Actualmente trabalha numa bomba de combustíveis e o marido na fábrica da Roca.

“No Brasil, a situação está muito complicada: há muita falta de segurança, e a situação financeira é muito grave”

“Quando chegámos o Roberto começou a trabalhar na construção civil, mas tinha o sonho de trabalhar na Roca, e assim que conseguiu a documentação necessária, foi contratado pela empresa: o trabalho é duro, mas pagam bem e a horas”, e isso é muito importante, garante. A jovem relata outra das dificuldades que encontrou quando chegou a Pombal, “é difícil encontrar habitações disponíveis para alugar, e pior ainda se procurarmos casas mobiladas”, quando a família chegou e tentou procurar um espaço para viver depararam-se com uma situação em que “os proprietários dizem que o apartamento está disponível, mas que não alugam a pessoas brasileiras”, e lamenta que “no passado os brasileiros criaram uma má imagem do país, e das pessoas, e agora estamos a sofrer essas consequências”, ressalva.
Em relação à integração na comunidade, a jovem contabilista não podia estar mais satisfeita: “felizmente encontrámos e conhecemos pessoas boas, que nos têm apoiado e ajudado nesta etapa”, e aponta para a igreja como um forte elo de ligação e espaço de convívio: “tem sido muito importante para nós sentir esta proximidade e apoio”.
Foi na Assembleia de Deus de Pombal que esta família, recém-chegada a Pombal, conheceu Lucilene Nascimento, mais conhecida por Lu, Greyscom Nascimento, conhecido por Baiano, e os filhos do casal Brian e David. Ao contrário do que acontece com a família de Tatiane, que está a apenas há oito meses no país, a família de Lu dispensa apresentações na cidade: afinal escolheram Pombal para viver há cerca de 15 anos, e após várias temporadas no Brasil, a jovem de 39 anos assume que encontrou na região um lar, e não coloca hipótese de ir viver para qualquer outra cidade. Ou melhor, “até posso ir viver para outra cidade, ou outro país, mas no dia em que decidir comprar uma casa, vai ser em Pombal”.

“No dia em que decidir comprar uma casa, vai ser em Pombal”

Aqui, “cheguei sem conhecer ninguém, três meses depois da chegada do meu marido, que veio mais cedo”, mas em pouco tempo criou um “elo de ligação” com os locais. “A integração foi um processo fácil, tive a sorte de me cruzar com pessoas sérias e boas”, que acabaram por “se transformar na família que não tinha em Portugal”, e relembra uma altura em que regressou ao Brasil, por dois anos, “mas nos primeiros meses já sentia uma grande vontade de regressar: sentia falta de muitas coisas”, e quando esse dia chegou, “as minhas amigas organizaram-se e juntaram um enxoval” que lhe ofereceram com o objectivo de “poupar algum dinheiro na compra de mobiliários, louças de cozinha, roupas de cama, e outros utilitários”. A jovem garante que “foi um gesto que não vou esquecer, e que ainda significa muito para mim”, porque “foi um gesto de amor”.
O casal chegou ainda sem descendentes, e agora, passados quase 15 anos, conta já com dois filhos, o Brian, de 10 anos, e o David, de 4, “encontrámos em Pombal um sítio seguro e simpático onde os nossos filhos podem crescer com uma qualidade de vida que o Brasil não oferece”. O mais velho já este no Brasil, quando era mais pequeno “e até se adaptou bem, mas a qualidade de vida que temos em Pombal é muito superior”, e se na altura em que decidiram rumar à aventura não havia crianças e o risco era mais pequeno, “nesta altura, o nosso foco é sempre o bem-estar dos meninos”.
Também Lu afirma que os primeiros tempos não foram fáceis, especialmente pelas questões burocráticas, mas afirma que “tenho a minha vida em Pombal”. Do pais de acolhimento só tem coisas positivas a dizer: “nunca senti qualquer tipo de discriminação e sempre fui muito bem recebida”. E como vida nova requer hábitos novos, a jovem esteticista, e brevemente cabeleireira, conta que já criou tradições com a família pombalense, e no Natal “alugamos um espaço e fazemos uma grande festa onde reunimos os amigos portugueses e brasileiros”, a data é ponto assente e “a única questão que se coloca é saber em que local se realiza o convívio”.

Famílias procuram apoio nas instituições locais

“Eu arrisco a dizer que no último ano, acentuando-se no final de 2018 e início deste ano, houve uma chegada muito representativa” de imigrantes brasileiros a Portugal, indica a presidente da Conferência São Vicente Paulo, Ângela Marques, que apoia estas pessoas. A responsável refere que “é uma nova vaga muito diferente das outras, com um aglomerado de perfis” e que veio para ficar, para “construir vida aqui”. Na história da imigração brasileira para Portugal já houve momentos de muita afluência como o final dos anos 1990 e início dos anos 2000, recorda, reafirmando que neste momento “há uma chegada bastante expressiva”.
Esta nova vaga é composta por diversos grupos, desde as pessoas com menos qualificação profissional, a um maior número de pessoas com mais qualificação, e se antes de verificava “a chegada de um membro da família que preparava a recepção dos restantes, actualmente estamos a verificar a chegada de famílias inteiras, mais numerosas”, e que por isso também dificulta na hora de encontrar um espaço para morar.
A responsável pela instituição refere que “a maior parte das pessoas que chegam à Conferência procuram mobiliários, roupas de cama, bens para a casa e roupas”, mas também apoiam várias famílias com produtos alimentares. Ângela Marques explica também que a maioria das famílias que a instituição apoia revela “condições muito más no Brasil, e a necessidade de sair do país devido à instabilidade económica e financeira”, que “influência muito em questões como a segurança e a empregabilidade”.
Segundo Ângela Marques, a instituição tem “vários processos de pedidos de apoio abertos” e dá conta de várias voluntárias conheceram a Conferência porque vieram pedir apoio, mas que acabaram por se tornar voluntárias e ajudam, actualmente, outras famílias que necessitam de apoio”.

Alunos estrangeiros trazem ‘multiculturalidade’ ao Agrupamento de Escolas de Pombal

Com esta vaga imigração, também o Agrupamento de Escolas de Pombal (AEP) tem verificado uma maior procura por parte de famílias estrangeiras. O director daquele Agrupamento, Fernando Mota, explica que efectivamente se tem verificado um acréscimo na procura por parte de alunos estrangeiros, “na sua maioria provenientes do Brasil”, e revela que actualmente “temos 130 alunos estrangeiros, provenientes de 11 países, dos quais 108 são de nacionalidade Brasileira”.
O responsável garante que a integração destes jovens dentro da comunidade escolar tem “cumprido os requisitos necessários”, sendo que aponta a maior dificuldade “é a língua”, no entanto o director garante que o “AEP sempre acolheu alunos estrangeiros e presta os apoios necessários à integração destes alunos”, no sentido destes participarem “nas actividades previstas do agrupamento em igualdade de tratamento e oportunidade”. E garante que a integração destes jovens no seio da comunidade escolar traz ao Agrupamento uma “multiculturalidade”, que resulta em “aprendizagens profícuas para a generalidade dos alunos”.
Considerando o aumento progressivo de alunos estrangeiros, Fernando Mota aponta para a necessidade de se “encontrarem soluções que respondam às necessidades específicas de todos, e de cada aluno”, com o objectivo de “facilitar a sua integração”, e garante que o AEP considera “ser um desafio para toda a comunidade educativa a integração plena destes alunos”, explica.