Belo Solutions: da alta-costura para os equipamentos de protecção individual

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Mesmo com a declaração de estado de emergência, a Belo Solutions, sediada na Marinha da Guia, junto à Estrada Nacional 109, entre Leiria e Figueira da Foz, não deixou de laborar. Depois de quase três décadas a criar peças de alta-costura para algumas das melhores marcas internacionais, a conceituada fábrica de confecções reinventou-se e criou uma linha dedicada à produção de equipamentos de protecção individual (EPIS) que tem como destino os territórios nacional e europeu.

Fundada em 1991, na Guia, a Belo Solutions começou por produzir a feitio, para a Alemanha e França, tendo por base princípios e tecnologias. Ao longo de praticamente três décadas, “a experiência e versatilidade das nossas costureiras aliada à qualidade dos nossos serviços permitiram-nos conquistar grandes marcas de renome nacional e internacional, como Lanidor, Globe, Pronovias, Victoria Beckham, Verónica Moncho Lobo, Rembo Styling ou Carolina Herrera”, para quem produziam peças de alta-costura, nomeadamente no segmento de noivas e roupa para cerimónias, conta Bruno Mesquita, o gestor da empresa. No entanto, com a declaração do estado de emergência, a gerência fez um investimento para que a empresa não parasse, sendo que o lay-off não foi adoptado um único dia. A Belo Solutions reinventou o negócio e, em apenas duas semanas, começou a produzir equipamentos de protecção individual para profissionais de saúde maioritariamente.
“Não é habitual que uma empresa tenha capacidade, em tão curto espaço de tempo, de adoptar novos recursos e de se adaptar, tão rapidamente, a novas produções tão especificas e exigentes”, no entanto foi o que aconteceu na empresa liderada por Bruno Mesquita, que depois de “muita pesquisa, vários testes e de muito apoio de vários profissionais médicos, que nos deram contributos importantíssimos de forma a irmos ao encontro das suas necessidades”, ajustou a produção a um novo segmento comercial. Passou a criar equipamentos de protecção individual, laváveis, reutilizáveis, com características únicas, e onde “toda a matéria-prima que utilizamos é de origem nacional ou europeia”, garante. Para a isso, “solicitamos a todos os fornecedores que nos entreguem um certificado de origem das matérias primas”, revela o empresário, enquanto explica que, “desta forma, garantimos a qualidade do produto final e criamos uma relação de proximidade e confiança com os nossos clientes, que comercializam os nossos produtos com a certeza de que estão a ser cumpridas todas as medidas de segurança e de qualidade exigidas”.

“Uma utilização segura associada a uma diminuição da pegada ecológica”
A empresa, apelidada por muitas das marcas de alta-costura com quem estabelecem relações comerciais como o “Rolls-Royce’s das fábricas de confecção”, deixou a trabalhosa e apaixonada tarefa de confecionar vestidos de noivas deslumbrantes, “praticamente todos trabalhados à mão”, e que, em alguns modelos, poderiam levar mais de 20 horas a produzir, mas isso não foi sinónimo de paragem. Muito pelo contrário. Aproveitando o know-how dos recursos humanos, readaptou-se para fazer face a uma nova realidade e, tal como na produção de peças de alta-costura, voltou a dar ‘cartas’, agora num novo nicho de mercado. Em período de pandemia, criou uma linha dedicada, em exclusivo, à produção de batas, cobre botas, cogulas, manguitos, perneiras e máscaras reutilizáveis, de grande qualidade, e que permitem “uma utilização segura associada a uma diminuição da pegada ecológica”, uma vez que, “por se tratarem de equipamentos laváveis, reduz-se, automaticamente, a produção de resíduos”.
Bruno Mesquita revela que “na altura em que começámos o projecto não havia praticamente nada do género a ser produzido”, sendo que “com mais de 25 produtos certificados continuamos a ser a única empresa no centro-sul do país a produzir este tipo equipamentos certificados”, o que lhes permite ter “vantagem em relação a outras fábricas”. A par desta mais-valia, grande parte dos artigos produzidos na Belo Solutions “são certificados pelo Centro Tecnológico das Indústrias do Têxtil e do Vestuário (CITEVE), Direcção Geral de Saúde e Infarmed”, ressalta ainda o empresário, ao mesmo tempo que evidencia as adaptações que foram introduzidas, a outros níveis. “Inicialmente tivemos que fazer alguns ajustes na maquinaria que já tínhamos”, sendo que “a empresa acabou por adquirir um sistema de autoclavagem industrial, um aparelho utilizado para esterilizar materiais e artigos médico-hospitalares por meio do calor húmido sob pressão”, para que o material “saia da nossa fábrica pronto a ser utilizado por profissionais das áreas médicas”. O empreendedor explica que “grande parte destes materiais equipam, agora, consultórios médicos, dentistas, pessoal do apoio domiciliário, entre outros”.
Dadas as exigências deste sector, Bruno Mesquita revela que esta reinvenção do negócio é “uma aposta ganha e de complementaridade à produção atual”, no entanto não esconde a vontade de voltar à confecção de artigos de alta-costura, até porque “seria um indicador de que a pandemia por Covid-19 estaria ultrapassada, ou pelo menos sob controlo”.
O empresário conta que “tivemos a oportunidade de confecionar o vestido que a modelo Irina Shayk desfilou em Barcelona para uma marca de vestidos de noiva”, uma produção que “ocupou perto de três dezenas de horas”. Actualmente, cada bata pode ser produzida “em menos de 15 minutos”.
“As nossas costureiras são as melhores do mundo”, reafirmou o gestor. Estas, não negam a paixão pelos trabalhos delicados de rendas e sedas, e admitem as “saudades de trabalhar com peças mais delicadas”. Ainda assim, “estão muito satisfeitas por saber que estão a desenvolver um trabalho de grande ajuda à comunidade”.