Armando Olívio Duarte, o padre que enveredou pelo jornalismo à boleia das rádios piratas

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Armando Olívio Duarte não é apenas o padre da paróquia do Louriçal. É também um jornalista com mais de três décadas de carteira profissional. A sua caminhada pelo mundo da comunicação social começou à boleia de uma rádio pirata, que criou para “chegar mais facilmente aos jovens”. Hoje, na paróquia do Louriçal, procura valorizar e renovar as vertentes religiosas e eucarísticas, tão características daquela zona, muito por influência do Convento da Santíssima Trindade.

“Um padre tem de estar atento aos diversos meios disponíveis para superar desafios e acompanhar e desenvolver a comunidade e as suas raízes”, considera Armando Duarte. “No Louriçal procuro viver este ambiente comunitário e religioso”, depositando “grande parte da minha aposta em tentar valorizar a vivência religiosa e eucarística”.
Mas há mais de três décadas atrás os desafios eram outros e as rádios piratas um “meio muito importante para chegar aos jovens”. E foi precisamente com a perspectiva de chegar aos jovens através de algo que “os motivava e interessava” que na década de 80 enveredou na “experiência das rádios locais clandestinas”. A viagem pelo mundo do jornalismo começou à boleia desta rádio, “precisamente para acompanhar o desenvolvimento da rádio que criei”.
Quase no fim dos “loucos anos 80” surge a possibilidade de legalização das rádios piratas. Nessa altura, havia duas hipóteses: acabar com a experiência ou avançar para a sua legalização. Optaram pela segunda alternativa sob pena de “frustrar as expectativas das pessoas, deixando-as ao abandono depois de as desafiar”. Por isso, “candidatámo-nos com um projecto consistente, mas também conscientes das dificuldades que teríamos pela frente”, contou o pároco, já na altura ciente de que esta “era uma área com escassez de meios de subsistência”. “E esse tem sido o grande desafio da história da Rádio Vida Nova FM”, que ainda hoje continua no ar.
Todavia, “hoje não há essa envolvência e motivação da juventude”, lamenta Armando Duarte, satisfeito por ter “conseguido deixar o amadorismo e projectar a rádio para toda a comunidade cristã”. A sua colaboração resume-se a uma rubrica diária que grava semanalmente e ao programa “Por mares nunca antes navegados”, que é igualmente transmitido em vários PALOP (Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa), nomeadamente Cabo Verde, Guiné Bissau, São Tomé e Príncipe, Moçambique e Brasil.
A sua colaboração para a história das rádios abrange ainda a participação, conjuntamente com outras rádios do país e a anuência da Rádio Renascença, na criação da Associação das Rádios de Inspiração Cristã (ARIC) e da VOX – Associação Mundial das Rádios de Inspiração Cristã de Expressão Portuguesa.
Mas a sua ligação à comunicação social vai além da rádio. Anos mais tarde, decide “recuperar e relançar para um nível mais regional” um jornal da comunidade de Santiago da Guarda (Ansião), que estava suspenso há vários anos. O Boletim Interparoquial Luz volta assim a “estar ao serviço da comunidade, do arciprestado e das paróquias daquela região”, continuando até aos dias de hoje.
E há mais. O pároco está igualmente “atento às mais diversas situações no plano cultural”, tendo trabalhado no “desenvolvimento do Queijo do Rabaçal”, promovendo algumas formações que deram origem à primeira Associação de Pastores e Produtores de Queijo Rabaçal. Além disso, deu-se conta dos fosseis da Sicó, sobre os quais foi pesquisando até perceber que podia valorizar esse património com a criação da Casa Museu Fosseis da Sicó, a qual veio ocupar uma casa de fins do século XVII recuperada.

 

Confraria do Santíssimo Sacramento tem de ser renovada

“A Confraria do Santíssimo Sacramento é das maiores da Diocese de Coimbra em termos numéricos”, mas é constituída por “pessoas já muito idosas”, contou ao Pombal Jornal o padre da paróquia do Louriçal, temendo que a não renovação dos seus membros possa conduzir à sua extinção.
“A Confraria não se renovou” e, apesar de vir “chamando a atenção para este problema, foi-se deixando andar”, disse Armando Duarte, lamentando “algumas formas de viver menos felizes” que contribuíram para o “adormecimento de grande parte das pessoas”.
“Portanto, não está famosa, embora seja grande e com grande peso histórico”, adiantou o padre, evidenciando que a Confraria “também não está a percorrer o melhor caminho para se renovar”.
“E é uma pena” não se apostar na renovação de “uma confraria que tem de facto uma expressão na vivência da eucaristia e com carácter de caridade”, sobretudo numa paróquia com “uma dimensão profundamente religiosa” como é o Louriçal.
Ainda assim, Armando Duarte faz um “balanço francamente positivo” dos quase seis anos à frente da paróquia, onde tem “tentado melhorar alguns aspectos” com “a comunidade a corresponder positivamente”.

Carina Gonçalves | Jornalista

*Notícia publicada na edição impressa de 12 de Agosto