SENTIDOS | Antes cega que surda

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The Parkinsons, por Telmo Pinto

Se estivéssemos a falar de futebol, diriam que isto é uma entrada a pé juntos. Com razão. A minha avó também me diz que não se brinca com estas coisas, mas a verdade é que se por algum motivo perdesse um dos sentidos e me fosse dado a escolher entre viver na escuridão da cegueira ou no vazio da surdez não pensava duas vezes: antes cega que surda!
A cegueira pode assustar, mas não reduz a capacidade de ver o mundo através da imaginação de quem já o vivenciou, enquanto que a ideia de me imaginar a ter de viver sem conseguir ouvir o som selvagem e agressivo de Sex Pistols, ou dos meus queridos The Parkinsons, ou o free jazz de John Coltrane. O rock psicadélico de King Gizzard and Lizard Wizard, ou a doçura de Sean Riley and The Slowriders, seria, no mínimo, desesperante.
É certo que o mundo é feito de cores, padrões, imagens e paisagens, mas também é feito de sons: o vento a soprar entre as folhas das árvores, carros a acelerar, despertadores a tocar, autoclismos a descarregar, pássaros a assobiar, cães a ladrar, pessoas a falar. O que seria de mim se não pudesse apreciar esses sons que me assaltam com a mesma naturalidade com que respiro. E depois… depois existem os sons que escolhemos ouvir: a música.
Não acho que quem ouve música pimba é labrego ou que quem gosta de trance é doido. Não quero saber se quem ouve kizombas é azeiteiro ou se quem gosta de punk é rebelde. Não quero perceber dos cabelos cumpridos dos metaleiros e não me chocam as vestes negras dos góticos. Prefiro conhecer as sensações que a percepção auditiva podem trazer: gosto de ficar arrepiada quando ouço uma música nova, adoro ficar obcecada por um álbum – que ouço até à exaustão – e não me importo de chorar durante um concerto só por achar que estou no sítio certo no momento certo.
Os rótulos ficam lá fora: no mundo escuro da cegueira. Por aqui enaltece-se o dom de quem nos faz apaixonar ao primeiro riff de guitarra, e porque não quero ser rotulada pela música que ouço. Quero é ouvir: música boa, música má. Música.
Não sou crítica e não digo o que se deve ouvir. Digo o que ouço, o que vejo e o que sinto. Pode não interessar a ninguém, mas a mim faz-me muito feliz.
Entretanto começa a época dos festivais de Verão, e parece que este ano se juntaram todos para nos infernizar a vida: é que escolher entre sopa e risotto de cogumelos selvagens é fácil, mas escolher entre o Primavera Sound, o Paredes de Coura, o Super Bock Super Rock, ou todos os outros, não é pêra doce. É que para além dos bilhetes não serem baratos, já lá vai o tempo em que as férias grandes tinham três meses.
Como não perdi nenhum dos sentidos e que ninguém me obrigou a escolher entre a escuridão ou a surdez, vou aproveitar este espaço para falar de concertos, festivais e músicas pela qual me vou apaixonando. Próxima paragem: Primavera Sound.
Bora lá abanar a pantufa!

 

Observação: As fotos que vou utilizar para ilustrar este e outros textos são da autoria de Telmo Pinto. Se ficarem curiosos, vão espreitar a galeria de Instagram dele, aqui.