André João: “As bases financeiras deviam ser parte da agenda escolar”

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Cresceu em Pombal, onde realizou grande parte do percurso académico, terminou a licenciatura em Economia, especializou-se em Banca, Regulação Financeira e Supervisão, e depois de uma experiencia profissional na Deloitte e no Banco de Portugal, faz, desde o final de 2016, parte de uma equipa responsável pela supervisão de uma instituição financeira que avalia diariamente os riscos que possam afectar a solidez do banco, em Frankfurt, no Banco Central Europeu. O jovem pombalense, de 29 anos, falou-nos do seu percurso, da experiência como soldado da paz, nos Bombeiros Voluntários de Pombal, e deixa ainda algumas dicas de literacia financeira. Sabe como poupar? André João explica…

Até terminar o secundário, o percurso académico de André João foi realizado em Pombal, tendo posteriormente concluído a licenciatura em Economia, na Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra, decorria o ano de 2011. Já enquanto trabalhava, “terminei o Mestrado em Economia Monetária e Financeira no ISCTE”, três anos mais tarde, e completou a formação académica com uma pós-graduação em Banca, Regulação Financeira e Supervisão, no ano de 2015. Aos 14 anos inscreveu-se nos Bombeiros Voluntários de Pombal, onde permaneceu até aos 21 anos, altura em teve de se mudar para Lisboa, por razões profissionais, no entanto, revela que a experiência de ser bombeiro voluntário o “enriqueceu em muitas vertentes”, e frisa o trabalho em equipa, “espírito de camaradagem, responsabilidade na tomada de decisões e confiança nas decisões dos outros, capacidade de gestão de stress” e mais importante que tudo, “deu-me amizades que ficarão comigo para a vida”.
Ainda durante a licenciatura em Economia, “recebi uma proposta para iniciar a minha carreira profissional na Deloitte, em Lisboa, como consultor fiscal”, conta o jovem pombalense enquanto explica que integrou os quadros do Banco de Portugal no Departamento de Supervisão Prudencial, entre 2014 e 2016. Mas o gosto pela “nova função, associado à curiosidade em ter uma experiência profissional fora de Portugal, conduziram-me ao Banco Central Europeu”, onde começou a trabalhar no final de 2016, e onde teve a oportunidade de dar “continuidade às funções que já exercia no Banco de Portugal, mas agora de uma perspectiva comunitária e não só nacional”.
“O principal objectivo da supervisão é assegurar a solvabilidade e a solidez financeira das instituições financeiras por forma a garantir a estabilidade do sistema financeiro, visando garantir a segurança do dinheiro dos depositantes”. É neste contexto que se inserem as suas funções: “faço parte de uma equipa responsável pela supervisão de uma instituição financeira que diariamente avalia riscos actuais e potenciais que possam afectar a solidez do banco”, explica.

O nível de literacia financeira dos portugueses é “baixa”

O jovem, de 29 anos, mostra-se preocupado com o nível de literacia financeira dos portugueses, que assume “ainda baixa, como ficou comprovado pelo Observador Cetelem em 2018, que concluiu que apenas 42% dos inquiridos considera ter um bom nível de literacia financeira”.
Questionado sobre a importância destas temáticas para uma boa gestão financeira, André João aponta duas vertentes “fundamentais” para que exista um bom nível de literacia financeira: “uma mais macro onde falamos do estado da economia nacional e mundial e que é tema diário nos meios de comunicação social”, “e depois uma perspectiva mais prática e quotidiana, em que a literacia financeira assume um papel fundamental na gestão do orçamento familiar”. No primeiro caso, o especialista em finanças explica que “para percebermos e emitirmos uma opinião precisamos de um mínimo conhecimento de conceitos básicos como PIB, inflação, juros negativos”, por exemplo. O segundo caso, refere-se à “necessidade de tomar decisões relacionadas com créditos, investimento ou poupanças” onde ideal é que sejam tomadas “decisões bem informadas, para o qual é fulcral que tenhamos conhecimentos financeiros mínimos”.

“As bases financeiras deviam começar a ser construídas desde cedo”

Dada a importância da literacia financeira na tomada de decisões ao longo da nossa vida, e de forma a contrariar a tendência mostrada pelo mesmo estudo, que dita que menos de 50% dos portugueses consideram ter bom nível de literacia financeira, o jovem pombalenses acredita que “as bases financeiras deviam começar a ser construídas desde cedo, devendo este tema ser parte da agenda escolar”. Por exemplo, “no ensino básico deveria começar por se ensinar às crianças o conceito do dinheiro, atribuindo mediante determinadas acções previamente definidas unidades de moeda, numa fase posterior, “poderia haver uma lista de “produtos” com preços diferentes que as crianças comprariam com as unidades de moeda recebidas, obrigando à tomada de decisões e definição de prioridades”. Desta forma, “a escola estaria a proporcionar o primeiro contacto com dinheiro e a explicar de forma lúdica conceitos como poupança e compras”, revela, enquanto explica que “a complexidade dos tópicos abordados aumentaria paralelamente com a progressão no nível de ensino, evoluindo para conceitos como taxas de juro, inflação e produtos financeiros”.

“Muitos portugueses tomam decisões sem terem consciência dos seus reais impactos”

André João, que está a desenvolver trabalho no Banco Central Europeu, afirma que o maior problema financeiro dos portugueses, é, na sua opinião, a “desinformação, ou seja, voltamos ao baixo nível de literacia financeira”. Assim, sem se darem conta, “muitos portugueses tomam decisões sem terem consciência dos seus reais impactos, seja porque não estão familiarizados com alguns conceitos, seja porque assinaram sem ler, seja porque têm vergonha de pedir mais esclarecimentos”, e adianta que “as pessoas podem e devem colocar todas as questões que tenham, seja com o seu gerente no banco, seja com um familiar profissional da área”, até porque “ninguém é obrigado a conhecer todos os chavões desta área e os profissionais têm obrigação de esclarecer e garantir que o cliente percebeu que operação está a realizar”.
Para o jovem pombalenses, o maior erro dos portugueses na gestão das suas poupanças “é a visão de curto prazo”, e explica que “a economia vive de ciclos, o que significa que existirá sempre uma próxima crise”. Assim, “quando estamos num período de expansão económica, acompanhado por melhoria de salários, existe a tendência para acreditarmos que essa situação se irá manter descurando-se a necessidade de poupar”, por esse motivo, “o meu primeiro conselho é que se aproveitem esses períodos de prospecção económica para criar algum suporte financeiro que permita atravessar mais confortavelmente a próxima crise… porque é certo que ela virá”, afirma.

“É importante colocar objectivos de poupança mensais ou anuais”

Em segundo lugar, “é importante colocar objectivos de poupança mensais ou anuais”. Não precisam de ser demasiado ambiciosos, o “importante mesmo é reconhecer a necessidade de poupar e tornar isso um hábito”, algo que se deve “incutir às crianças desde pequenas”. O especialista aconselha a que “os pais incentivem a poupar” e admite que “os mealheiros continuam a ser bons presentes para as crianças”, uma vez que esta “é uma parte importante da formação delas para que se tornem adultos informados e responsáveis”.