Ana Beatriz vive com a diabetes desde os 20 meses

0
1009

Ainda era uma bebé quando lhe foi diagnosticada a doença e por isso não tem memórias de vivências onde a Diabetes Mellitus Tipo 1 não tenha tomado parte. Ana Beatriz sabe que tem uma doença para a vida, dependente da insulina, mas isso não a impede de fazer o que mais gosta, sobretudo desporto, que pratica regularmente desde os cinco anos. Aluna da Escola Secundária de Pombal, a jovem diz que “disciplina” é palavra de ordem no dia-a-dia para ultrapassar as contrariedades que a doença lhe coloca. No dia 14 de Novembro, assinala-se o Dia Mundial da Diabetes.

Os primeiros sinais de alerta foram dados pela ama de Ana Beatriz. A bebé “estava sempre com muita sede e eu, em casa, ainda não me tinha apercebido”, conta ao nosso jornal Isolete Ferraz, residente em Venda da Cruz. A mãe da jovem de 15 anos diz que, a partir desse dia, começou a tomar atenção, também em casa, a estes sinais, registando a quantidade de água que a bebé ingeria. Nessa altura falou com a cunhada, enfermeira, e foi ela quem lhe disse que os sintomas indiciavam tratar-se de diabetes. “Eu tinha a consulta dela dos 18 meses, que tinha sido adiada, e a minha cunhada sugeriu-me que falasse com o médico para que ele a encaminhasse”, recorda Isolete. “Ao invés de me encaminhar chamou-me doida, porque uma criança com 20 meses jamais é diabética, e que se eu a quisesse picar para o fazer em casa”. Não desarmou e foi precisamente isso que fez com a ajuda da cunhada. O resultado da glicémia, com níveis muito acima do normal, confirmou as suspeitas. Ana Beatriz tinha 20 meses e era diabética.
Depois disso, ligou para o centro de saúde, onde lhe indicaram os procedimentos a seguir. “Disseram-me para lhe dar o pequeno- almoço e ir ter com o médico”. Entretanto o valor da glicémia subiu ainda mais e, nessa altura, “o valor já estava superior a 400”. A bebé é então encaminhada de imediato para o hospital de Leiria, onde a família “já tinha uma equipa médica à espera, por ela ser muito pequena”.
Naquela unidade hospitalar, Ana Beatriz esteve internada cerca de um mês e meio, sempre acompanhada da mãe, que inicialmente não conseguia aceitar a ideia de ter que injectar a filha.
Contudo, Ana Beatriz debateu-se ainda, nas primeiras 48 horas de internamento, com a rejeição do organismo ao tipo de insulina administrada, o que fez a glicémia disparar para níveis assustadores, superiores a 600. “Aparentemente ela estava bem, mas se fosse um adulto entrava em coma e não reagia”, explica Isolete Ferraz. Aliás, a equipa médica “nunca tinha tido um caso assim, tão pequenina e com os sintomas como ela tinha”.
Encontrada a insulina certa, era preciso a mãe aprender também a administrar a medicação, uma vez que a dosagem estava dependente dos hidratos de carbono ingeridos.
“Naquela idade é difícil precisares a quantidade de hidratos de carbono que comem. Com medo das hipoglicémias, para controlar melhor durante a noite e até eu aprender a lidar com a situação durante a noite, tinha que ver a glicémia de três em três horas”, recorda Isolete. “Quando viram que eu tinha capacidade para lhe administrar a insulina, deram-lhe alta”.
Em casa, os cuidados mantiveram-se. “Fazia a insulina de três em três horas. Começava às sete da manhã e terminava às dez da noite”, mas a vigilância mantinha-se depois disso, lembra a mãe de Ana Beatriz, que diz que a rotina se manteve até a filha entrar no pré-escolar. “Aí, quem controlava era a educadora e a auxiliar”, mas nem tudo foi fácil. No último ano do pré-escolar “foi o descalabro”, acrescenta a jovem, “porque a educadora não conseguia dar conta do recado”. Chegou a estar várias vezes internada, até que se percebeu que ficava doente por “falta de insulina”, que não lhe era administrada na escola com o rigor horário exigido.
Contudo, “quando ela foi para a primária, a professora dela teve o cuidado de ir ao centro de saúde pedir formação à enfermeira. Teve uma professora excelente na primária”, salienta a mãe, que lamenta que os profissionais das escolas não esteja preparados para lidar com estas situações.

Alimentação normal
É no campo da alimentação que estão muitos dos mitos associados à diabetes, mas Ana Beatriz garante que pode fazer “uma alimentação normal, desde que pese os hidratos de carbonos” que come. Para a auxiliar nesta tarefa, a jovem tem também uma tabela com os hidratos de carbono.
“Desde que tenho memórias foi sempre assim, por isso, não me afecta muito”, diz a estudante do 10º ano, mas assume que há momentos em que a revolta fala um pouco mais alto. “Às vezes, nas festas de anos, quero ir comer qualquer coisa, mas tenho que ver a diabetes antes, injectar, e depois é que posso ir. Enquanto os outros já foram e já andam a brincar outra vez….”, desabafa. “Por vezes prefere não comer do que fazer este processo todo”, revela a mãe.
Mas Ana Beatriz diz que já se sentiu “mais revoltada”, nomeadamente quando frequentava o sexto e sétimo anos. “Entrei na adolescência e pensava que era injusto estar sempre cheia de preocupações, enquanto os outros podem andar de um lado para o outro. Eu sou uma pessoa normal, pensava, e posso andar como eles”, recorda. “Agora já brinco um bocado com a doença”.
Para ultrapassar esta fase, Isolete diz que a filha chegou a ter consultas de psicologia, em Leiria, depois de ter notado mudanças no comportamento. Foi o médico que a acompanha naquele hospital que lhe sugeriu as consultas. “A partir daí, correu tudo bem” e Ana Beatriz rapidamente deixou de ser seguida na especialidade. “Em Leiria, ela tem uma equipa [multidisciplinar] espectacular a segui-la desde sempre”, faz questão de frisar a mãe, deslocando-se àquela unidade de saúde de três em três meses.
Ainda que durante o dia, de três em três horas, seja agora Ana Beatriz a controlar a glicémia, é a mãe quem se levanta todas as noites, há 13 anos consecutivos, para fazer esse controlo. “Às vezes há necessidade de comer e injectar, ou seja, corrigir a glicémia”, conta Isolete, que diz que já nem recorre ao despertador.

Controlar a glicémia faz parte das rotinas de Ana Beatriz. Durante a noite, conta com a ajuda da mãe

“Não somos coitadinhos”
Apesar destas condicionantes, Ana Beatriz procurou sempre levar uma vida como qualquer criança e jovem da sua idade. Desde os cinco anos que é federada no karaté e diz que isso a ajuda a controlar a doença. “Sempre fui uma criança com muita energia e precisava de a gastar”.
“Tem é de ter cuidado de, antes do treino, ver a glicémia e comer e, no final, volta a ver os valores e se há necessidade de comer. Caso contrário, já só janta em casa. São os únicos cuidados a ter”, explica a mãe, que faz questão de dizer que é preciso encarar a doença sem tabus e que os doentes “não são uns coitadinhos”. Para isso também muito contribuiu a abertura dos pais na forma como sempre lidaram com a situação. “Nunca escondemos que ela é diabética. Foi algo que o médico sempre me pediu. Se ela precisar de injectar, não ir para a casa de banho e não fazer da minha filha um monstro”.
“Somos pessoas normais. Não é por perdermos dois minutos que vamos deixar de viver”, reforça a jovem, para quem o grande segredo para melhor lidar com as adversidades da doença é a disciplina.
Sobre o facto de os diabéticas não estarem nos grupos de risco para a administração da vacina da gripe, Ana Beatriz diz ter ficado “um bocado em choque”, atendendo às características da doença. Contudo, desde os cinco anos que faz a vacina da gripe e administra também a Pneumovax, revela a mãe.