A UNIÃO EUROPEIA FALADA EM PORTUGUÊS | T1S01 – A União Europeia a partir da raiz / CECA ou seca?

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Sabias que nem sempre a União Europeia assim se chamou?
A sua origem obriga-nos a viajar no tempo. Apesar do projeto europeu ser já muito desejado por filósofos e políticos do passado, sendo de destacar Jean Monnet como o seu grande arquiteto, apenas nas cinzas da II Guerra Mundial (IIGM) esta encontrou as forças para se materializar. Se por um lado a II GM foi, acima de tudo, destruidora e evidenciou a falta de humanidade que na humanidade falta, por outro lado, pós findada, revelou a necessidade de união e de cooperação entre as maiores nações europeias, arrumando numa gaveta as rivalidades até aqui vincadas.
Como alternativa à conflitualidade entre os Estados e ao fim dos totalitarismos e antagonismos nacionais europeus, surgiu o projeto político europeu, com vista à garantia da paz e da harmonia, tão valiosas e escassas, entre as principais potencias europeias. (Ainda hoje os nomes de Hitler, Mussolini, Salazar e Franco causam arrepios na história dos nossos povos!)
Hoje em dia, celebremente conhecidos como “Pais da Europa” destacam-se os estadistas Robert Schuman (Ministro dos Negócios Estrangeiros francês), Konrad Adenauer (Chanceler alemão), Alcide de Gasperi (Primeiro-Ministro italiano) e Winston Churchill (Primeiro-Ministro do Reino-Unido). Capazes de persuadir os seus povos para a aceitação de uma Comunidade Europeia, foram eles os criadores de uma nova etapa na nossa história.
O marco capital da Europa foi dado em 1948 no Congresso Europeu em Haia (Holanda), presidido por Churchill. O encontro ficou marcado pela afirmação do Primeiro-Ministro Inglês de que a paz na Europa só seria alcançada quando a França e a Alemanha se entendessem e, que, para tal, seria necessário um esforço de integração entre os países. Assim se uniram os Estados e, como primeiro passo, surgiu o Tratado de Bruxelas, também em 1948, que desenhava um acordo de Defesa Mútua entre países, o equivalente ao dever de assistência coletiva.
A nova estrutura de integração europeia só poderia ser equilibrada mediante o cruzamento de interesses entre as grandes potências. É aqui que entra a importância da economia e da indústria. O receio do poderio económico Alemão, dada a sua rápida recuperação industrial de produção de carvão e aço, por parte da França e da Inglaterra, levava-as desejar uma integração mais intensa entre si. É importante destacar que o carvão e o aço eram e são as matérias primas mais importantes e cobiçadas, digamos que o ouro e o fuel do mundo industrial.
Assim, o cruzamento de interesses em controlar a ameaça alemã, levou Robert Schuman a propor a fundação de uma Comunidade Europeia do Carvão e do Aço (CECA). Por outras palavras, a ideia seria colocar a produção do carvão e do aço de países outrora inimigos sobre uma autoridade comum, a Alta Autoridade. Apesar de arrojada, a CECA assumiu um carácter supranacional e foi formalizada no Acordo de Paris de 1951 por seis Estados-membros, a França, a Républica Federal Alemã, a Itália, os Países Baixos, o Luxemburgo e a Bélgica.
Torna-se surpreendente como as matérias‑primas da guerra se transformaram em instrumentos de reconciliação e de paz entre potencias anteriormente rivais! A cooperação é, então, a palavra-chave, tanto na União Europeia como em todos os aspetos da vida social, económica e política. Atualmente, a máxima de manter e consolidar a paz estabelecida entre os Estados-membros ainda integra o grupo de objetivos primários da UE, dada a fragilidade do equilíbrio dos interesses entre Estados-membros!
Deste modo, o primeiro nome da União Europeia foi, exatamente, CECA. Mas diz-me, não foi seca nenhuma, pois não?

Vitória Sá
Mestranda em Economia Internacional e Estudos Europeus