A política voltou à Europa

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Como facilmente se antevia já há algumas semanas, o verniz entre o Primeiro-Ministro Grego e os homólogos Português e Espanhol começou a estalar, com as declarações do primeiro sobre um bloqueio da Península Ibérica, no seio do Eurogrupo, à extensão e aos termos do plano de assistência à Grécia.

São escusadas estas acusações logo agora que o acordo foi alcançado. Tenho a sensação que Tsipras e Varoufakis tinham a convicção de que iriam angariar partidários entre os países com planos de assistência, dividir a União Europeia e vencer, o que não veio a acontecer. Não posso deixar de perceber uma parte do discurso Grego, em especial quando se refere ao exercício exagerado das medidas de austeridade que foram impostas ao seu país, bem como ao nosso. Neste aspeto, reconheço que Portugal deveria ter-se solidarizado com os Gregos, até porque a austeridade fundamentalista a que foram obrigados os países intervencionados, que até admito poder ter algum benefício na macro economia, não o tem para a população em geral, e a macro economia deve servir, precisamente, a micro, na mesma medida que a União Europeia deve ajudar os seus membros de forma equilibrada, não asfixiante como o tem feito. Aliás, como país intervencionado pelas instâncias europeias, devíamos precisamente estar a lutar por condições mais ponderadas, realistas e alargadas no tempo de pagamento da dívida, aliviando-nos a todos, que bem precisamos. No fundo, existe no governo Português e em boa parte da oposição, uma sensação de despeito e de alguma inépcia política, uma vez que a Grécia põe em causa toda uma franja de políticos que se envolveram na implementação do programa de assistência nos respetivos países, que nunca conseguiram (re)negociar. Aliás, por cá, a única força de contra vapor tem sido a do tribunal constitucional. Verdadeiramente, a tal resiliência de que a Ministra das Finanças carinhosamente falava há umas semanas, ao lado de Schäuble, a propósito da forma como os portugueses encararam a austeridade severa, é antes uma resignação triste àquilo que nos convencemos que não conseguimos alterar. Percebo a absoluta necessidade de medidas de austeridade, o problema é que esta foi levada a um extremo que põe em causa a dignidade da população – veja-se o número elevadíssimo de portugueses que agora vive com o miserável salário mínimo nacional – e o funcionamento de empresas; e a aceitação plácida desta situação, que ainda é mais grave na Grécia, não foi acolhida pelos Gregos com a mesma resignação latina, fazendo os helénicos desta rejeição o seu bastião. Mas o discurso Grego também atingiu, em determinados momentos, patamares de quase “chico espertice”, como quando Varoufakis propôs ao Eurogrupo a transformação de parte substancial da dívida Grega em obrigações perpétuas! Não era um perdão da dívida, atenção!!, era uma dívida sem prazo de pagamento… Por isso, o acordo que agora se estabeleceu é bem diferente daquele que pediam. E nesta sequência, o primeiro- ministro Grego vem agora, em modo agastado e despeitado, fazer acusações de bloqueio de Portugal ao acordo, com declarações não apenas de grande deselegância política mas também de exposição banal dos TRABALHOS dos Ministros das Finanças Europeus. Não é compreensível! Parecia-me bem melhor se apelasse a uma solidariedade europeia na resolução do problema Grego e do dos países assistidos, até em nome de uma coesão da União Europeia; mas tentar organizar um núcleo opositor dentro da União é preparar um terreno fraturante perigoso.

António Pires

antoniojosecpires@gmail.com

Artigo de opinião publicado na edição n.º51, de 05 de Março