Ouro líquido: quando a tradição se alia à inovação tecnológica

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Numa região onde as oliveiras são parte integrante da paisagem e o azeite é um dos mais afamados produtos endógenos, a apanha da azeitona é um ritual de Outono, e Inverno. Apesar de parecer uma tarefa simples, a colheita da azeitona requer arte, dedicação e muito trabalho. Depois de apanhada, a azeitona segue para os lagares, onde processado, de forma a obter azeite.

Mais que uma moda produzir azeite é uma tradição na região, e se houve alturas em que a agricultura era colocada de parte, em detrimento de outras actividades, hoje em dia percebe-se facilmente que existe cada vez mais gente interessada, e preocupada, em saber o que mete no prato. A produção de azeite é um espelho dessa realidade, a actividade “teve um período de esquecimento, mas notamos que existem cada vez mais pessoas dedicada ao olival e à apanha da azeitona”, refere Gregório Rosa Portela, proprietário do lagar de azeite Meirilagar, sediado nas Meirinhas.
A história remonta à quarta geração: “o meu avô, Manuel Pereira Portela, agricultor de profissão, explorou um lagar de azeite tradicional, movido a água, entre os anos 20 e 40 nas Meirinhas de Baixo”, conta. “Infelizmente, com a passagem de geração não se deu continuidade à exploração do lagar”, que agora “está na posse da Junta de Freguesia de Meirinhas, servindo de apoio à Associação de Caçadores da Freguesia”, no entanto, e apesar de o lagar já não ser explorado pela família, as oliveiras continuaram a existir, e a ser tratadas. Gregório Portela continuou a nutrir o gosto pela agricultura, e com o avançar dos anos foi plantando mais olival.
Anos mais tarde, em 2017, Gregório Portela juntamente com esposa e filhos, fundaram o Meirilagar, um lagar de azeite situado nas Meirinhas, mais precisamente em Covinhas, um “local diferente do inicial”, e que não quer ser um lagar tradicional, mas sim “um lagar moderno que acompanha a evolução tecnológica”, onde se garante “sempre a qualidade do azeite que ali se produz”. Os fundadores do Meirilagar consideram que se “deve apostar na agricultura nacional e na qualidade que por cá existe”.
Em tom de brincadeira, o patriarca da família revela que a ideia de criar o lagar já vem de “há muitos anos”, aliás, “quando se falava em agricultura, sempre disse que o olival era a aposta mais acertada, mas as pessoas acabavam sempre por perguntar depois de apanhada a azeitona, onde é que iam fazer o azeite”, observando a falta de oferta na região, ao que Gregório respondia “façam olival, que eu trato do lagar”. Dito e feito, o projecto arrancou no ano passado, tendo a época sido “melhor que o expectável”. Para este ano, “apesar de haver muito menos quantidade de azeitona, o fruto é de bastante qualidade”, por isso avizinha-se um ano de “bom azeite”.
Neste lagar moderno, a azeitona passa por todos os processos que passaria num lagar tradicional, desde a limpeza, lavagem, moenda, termobatedura até à separação, mas com a vantagem de que a eficiência de produção é superior e a qualidade não é de todo comprometida, graças à tecnologia de ponta adquirida “depois de muita pesquisa” e da colaboração da filha, Alice Portela, pós-graduada em Biotecnologias.
Também Abel Dias, da freguesia de Vermoil, confirma as palavras de Gregório Portela, “este ano estou surpreendido com a qualidade da azeitona”, se inicialmente “acha que não ia fazer azeite, há poucas semanas apercebi-me que afinal, apesar de ser em menor quantidade, este ano há azeitona de boa qualidade, com bom aspecto e sumarenta”, e assim admite que “até a ceia de Natal vai ser mais saborosa”. Opinião corroborada por Marco Neves, que vive e trabalha no concelho de Pombal, tem poucas oliveiras e um gosto especial pela agricultura. Assim, nesta altura do ano costuma comprar azeitona no olival, que apanha e leva ao lagar para produzir o seu próprio azeite. Admite que “provavelmente não compensa a nível monetário”, porque tem de “comprar a azeitona, gastar vários dias a apanha-la e depois tenho de pagar no lagar”, mas assume que “assim tenho sempre a certeza da qualidade da azeitona e do azeite” e é um processo que lhe dá “muito gosto”.
Para Gregório Portela, proprietário do Meirilagar, produzir azeite é um “trabalho duro”, mas depois de o provar, quando acabado de sair do lagar, é uma “sensação especial”. Afinal de contas, “é o resultado de muitas horas de dedicação”. O empresário espera começar a produzir azeita nas próximas semanas, e assume que “já há bastante procura, por parte dos agricultores”, que estão desejosos de provar o ouro liquido, proveniente do seu trabalho.
Paralelamente, o empresário também comercializa azeite, e espera aumentar a produção nos próximos anos, e enquanto isso não acontece, também assume a possibilidade de “comprar a azeitona aos produtores que não pretendam fazer azeite, ou que tenham muita azeitona”, e com boa disposição afirma “desperdiçar esta preciosidade é que não”!