O PERFUME DA SERPENTÁRIA | Cuidado, meninos Tonecas*

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O menino Tonecas é uma personagem fictícia, apresentada a primeira vez nos anos 30 do século passado, numa sitcom humorística da Rádio Clube Português intitulada “O Senhor Doutor”. O enredo era simples. O Tonecas era um vivaço aluno da escola primária, que passava a vida a infernizar o professor através um interminável rol de travessuras. Apesar de, naquela altura, a palmatória ser considerada um auxiliar pedagógico precioso, o menino Tonecas escapava sempre ao correctivo. Talvez fosse esse sentimento de impunidade que fizesse com que o petiz colocasse em prática diabruras cada vez mais imaginosas e, com isso, provocasse nos ouvintes as mais estrepitosas gargalhadas.
A intemporalidade do tema justificou que a RTP “desenterrasse” a série nos anos 90. Desta vez com o nome de “As lições do Tonecas”. Mais uma vez, foi um sucesso tremendo. Ao ponto do seu protagonista, Luís Aleluia, ficar com a personagem “colada à pele” para o resto da sua carreira. Ao que me lembro, a série esteve no ar durante largos anos e sempre com uma audiência fiel. Ao longo das dezenas e dezenas de episódios, o menino Tonecas nunca aprendeu a comportar-se nas aulas. Apesar disso, o benévolo professor nunca lhe bateu. Nem mesmo o sujeitou a um castigo ou lhe moveu um processo disciplinar. Assim, o Tonecas nunca viu qualquer motivo para mudar a sua conduta reguila e provocadora.
Inspirados ou não por esta série de sucesso, os nossos políticos também são dados a uma boa travessura. Como têm menos imaginação e sentido de humor, as traquinadas que escolhem são quase sempre tristes. Como estão simultaneamente no papel do Tonecas e do professor (são eles que aprovam as leis que se lhes aplicam), também não é de esperar que parem com as velhacarias. Falar de todas elas seria como abrir a “Caixa de Pandora” da malandragem.
Começa tudo nas campanhas eleitorais. Para eles, dizer umas embustices na campanha é uma coisa trivial (aqui em Pombal temos exemplares muito bons desta prática). Como proferir aldrabices não os embaraça, o que se seguirá também não pode ser muito salubre.
Como em tudo, há sempre uns mais mariolas do que outros e confundem a mariolice com a vilanagem. Felizmente, um a um, vão sendo descobertos e castigados (pelo menos, esperamos que sim!). Os mais tímidos, mesmo que não ultrapassem o limite da ignomínia, vão-se consolando com a simples safadeza. Não posso deixar de entornar alguma admiração por alguns deles, como a deputada Emília Cerqueira: Arranjou uma desculpa parva por ter registado a presença no parlamento do seu “compadre” José Silvano e conseguiu afirmá-lo à frente dos jornalistas sem se rir. NOTÁVEL!!!. Mais notável que isto, só se está realmente convencida de que alguém acredita nela.
Esta fieira de despudores, de maior ou menor gravidade, vão mergulhando os políticos na “lama” opaca da desprezibilidade. Em Portugal, a forma de como os cidadãos têm manifestado a fartação com que estão dos Tonecas é a corpulenta abstenção. Metade dos eleitores não comparecem aos sufrágios. Este sintoma não tem sido objecto de grande preocupação por parte da classe política. Como continuam gorditos não ligam.
Na semana passada vi uma referência no The Guardian (não deve ser fake news) a um estudo da Universidade de Amesterdão sobre a evolução da impressionabilidade dos eleitores europeus ao apelo dos movimentos políticos populistas, nomeadamente, de extrema-direita. As conclusões são devastadoras: 1 em cada 4 cidadãos europeus sentem-se seduzidos pela mensagem dos populistas. Também foi alvo de análise a representatividade dos movimentos políticos populistas tanto nos parlamentos como nos próprios governos europeus. Neste momento, os governos de 11 países europeus têm na sua constituição representantes de partidos populistas. O mesmo estudo aponta como causa para esta desgraceira, paralelamente à crise económica e à situação dos migrantes, o desvalor com que os cidadãos olham para a classe política. Os resultados das próximas eleições europeias que se realizarão em Maio de 2019 poderão tornar ainda mais clara esta pesarosa tendência.
Já pisei e repisei o tema da ética na acção política. E não me cansarei de o fazer. Temo que algum dia se faça um remake das “Lições do Tonecas” mas com um guião um pouco diferente: Nós seremos os Tonecas e o professor será tão austero que nos dará palmatoadas, tanto por termos uma brincadeira parva, como por simplesmente falarmos ou pensarmos.

*O autor deste artigo acha que quem pensou o novo acordo ortográfico esteve com tanta atenção às aulas de Português como o menino Tonecas.

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Engenheiro Técnico Agrário pela Escola Superior Agrária – IPB – Beja. Licenciado em Segurança e Higiene do Trabalho e Mestre em Gestão Integrada da Qualidade, Ambiente e Segurança pela Escola Superior de Segurança, Tecnologia e Aviação – ISEC – Lisboa. Foi durante mais de uma década responsável de Departamento da Qualidade, Ambiente e Segurança em diversas empresas. É consultor e formador em Sistemas de Gestão. É Professor Adjunto Convidado na Escola Superior de Tecnologias da Saúde de Coimbra. Foi prelector / moderador em diversos congressos, seminários e work-shops sobre a temática da Segurança e Higiene do Trabalho e Gestão da Qualidade. É autor e co-autor de diversos artigos científicos publicados na área da Saúde Ocupacional. Desempenha actualmente as funções de vereador da Câmara Municipal de Pombal.