Lucídio de Oliveira: a lua-de-mel ‘romântica’… na Coreia do Norte

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Para a maioria dos casais, lua-de-mel é sinónimo de uns dias de férias num destino paradisíaco, longe do buliço e em segurança. Na altura de decidir o destino da sua viagem de celebração ao amor, Lucídio de Oliveira, natural dos Alhais, freguesia do Carriço, e a sua noiva escolheram a Coreia do Norte, um dos países mais polémicos da actualidade.

Esta história tem raízes no concelho de Pombal, nos Alhais, para ser mais precisa, mas foi em Coimbra que tudo começou. Lucídio de Oliveira é natural da freguesia do Carriço, e o seu percurso escolar passou pela vila vizinha, onde frequentou o Agrupamento de Escolas da Guia. Mais tarde mudou-se para Coimbra, com o objectivo de frequentar o curso de Gestão de Empresas no Instituto Superior de Contabilidade e Administração de Coimbra. Pelo caminho conheceu Diana de Carvalho, e ditou o destino que passados sete anos, o momento era de escolher o destino da lua-de-mel.
A viver em Malta há cinco anos, o jovem casal rumou à aventura desde cedo. Concluída a formação académica, Lucídio e Diana participaram num programa de Erasmus que os levou até àquela ilha do Sul da Europa. A experiência foi tão boa que acabaram por se fixar no país. Actualmente, o jovem de 31 anos actua “na área das Relações Internacionais”, e Diana de Carvalho trabalha “numa plataforma de Bitcoin”. Confessam que “voltar para Portugal passa muitas vezes pelas nossas cabeças”, no entanto, “gostamos de estar em Malta, é um bom país para se viver e para trabalhar”.
Sempre que têm oportunidade, gostam de partir em busca do desconhecido, e para além de destinos mais tradicionais como Praga, Berlim, Barcelona, Roma, Viena, os recém-casados já passaram pela Palestina, onde estiveram às portas da Faixa de Gaza, por Israel, já fizeram a U.S. Route 66, nos Estados Unidos, entediaram-se em Las Vegas, e até tentaram a sua sorte na descoberta da Área 51, um destacamento remoto da Base Aérea de Edwards das instalação da Força Aérea dos Estados Unidos, situada dentro da Área de Teste e Treino de Nevada, uma área conhecida “como sendo um local de investigação Ovni e onde supostamente houve vários avistamentos”.
“A Coreia do Norte era um país pela qual sentíamos muita curiosidade”, por isso na altura de decidir o destino da lua-de-mel, a decisão não foi difícil, “nem romântica” por sua vez, todo o processo de aquisição de visto de turista para entrar na Coreia do Norte já foi “um pouco mais incerto”. Afinal os jovens trocaram alianças a 12 de Maio, e a viagem só se concretizou agora, em Setembro.
Apenas “duas agências de viagens chinesas organizam viagens para a Coreia do Norte, e só no dia anterior à viagem é que temos o visto para viajar”. A partida “foi cancelada e remarcada duas ou três vezes, pelo próprio governo Norte Coreano, por isso estivemos na incerteza de conseguir viajar até ao último momento”, no entanto, a viagem realizou-se e do “outro lado do mundo”, trazem muitas histórias para contar.
Na bagagem trazem a imagem de um país “bastante mais modernos do que esperávamos, pelo menos nas partes que nos permitiram ver e que estava pré-definida”, mas onde nunca se conseguiram “sentir totalmente em segurança”. Assim que aterraram “foi-nos retirado o passaporte, que só nos foi devolvido no dia em que viajámos de volta”, e também “nos era proibido sair à rua sem alguém a acompanhar”. A “guia turística era muito simpática, mas bastante rígida também”, afinal “se houvesse algum problema connosco ela acabaria por ser responsabilizada de alguma forma”, o que implicava ver todas as fotografias que os jovens fizeram durante a viagem, “as estátuas dos líderes, os posters dos líderes, as pinturas dos líderes, enfim, tudo o que metesse a imagem dos líderes tinha de aparecer por inteiro, não podíamos “cortar um braço” ao Kim Jong-Un, por exemplo”.
Durante a estadia, o casal aproveitou para assistir ao Mass Games, o Festival das Grandes Massas e Performances Artísticas e Ginásticas Arirang, um espectáculo “realizado no Estádio Primeiro de Maio Rungrado em Pyongyang, o maior estádio do Mundo”. Lucídio de Oliveira e Diana de Carvalho contam com entusiasmo como “conseguimos assistir ao dia de inauguração do festival, e por isso tivemos a sorte de conseguir ver o líder do país, Kim Jong-un”, que presidiu à cerimónia, a “menos de 100 metros de distância, e sem qualquer segurança, visível, ao seu redor”, mas antes disso todos os ocupantes do estádio foram “rigorosamente revistados”. E descrevem a experiência como “arrepiante: é arrebatador, independentemente das ideologias comunistas, ver um líder ser idolatrado por mais de 150 000 pessoas”.
Num país onde “não existe rede de telemóvel para o estrangeiro, nem internet, estivemos totalmente desligados do mundo ocidental, como o conhecemos”. O casal escolheu um hotel e ficou hospedado noutro, “mas não havia à vontade para reclamar”, porque se sente “um clima de medo”, e se sabe desde início, “foi-nos explicado durante a reunião que tivemos na agência de viagens, que poderíamos estar a ser controlados de alguma forma”, e foi “estranho quando logo na primeira noite vi pequenos flash’s a sair das grelhas do ar condicionado, no quarto do hotel”. Na altura ambos perceberam que poderiam estar a sob escuta, ou a ser fotografados por algum mecanismo remoto, “mas só tivemos coragem para falar sobre o assunto, entre nós, quando regressámos à China”.
Apesar deste “desconforto”, o casal admite que o país é “muito seguro, onde existem crianças a brincar nas ruas, e as pessoas parecem genuinamente felizes, talvez porque têm um total desconhecimento de qualquer outra realidade que não seja a deles”. Por sofrer de Distrofia Muscular, uma doença que causa perda progressiva de força e degeneração dos músculos esqueléticos, Lucídio de Oliveira desloca-se de cadeira de rodas, e “as pessoas eram extremamente simpáticas, às vezes até demais, porque queriam agradar de tal forma que por vezes nem me deixavam fazer nada”, sublinha. “Fomos tratados como Embaixadores”, e frisa “é um país de extremos: somos tratados como se fossemos da realeza, mas não temos sequer o poder de decidir o que comemos”.
De olhos postos no futuro, o jovem casal admite que tem outros destinos debaixo de olho, “certamente não tão entusiasmantes como a Coreia do Norte, porque acho que deve ser impossível, mas gostava muito de visitar o Iraque”, confessa o jovem natural de Alhais. No caso de Diana “gostava de visitar os Pólos, principalmente o Pólo Sul, mas o Lucídio diz que é capaz de ser um bocadinho frio demais”, brincam.