Grande Mestre do xadrez realiza estágio em Pombal

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No Xadrez, António Fernandes é o homem dos recordes. São 15 títulos de Campeão Nacional Absoluto. Aquele que é actualmente um dos três grandes mestres portugueses, juntamente com Luís Galego e António Antunes, começou a praticar a modalidade aos sete anos, com o impulso do pai, Júlio Santos, que se sagrou campeão nacional absoluto por três vezes e que ainda hoje é campeão nacional de seniores, na categoria acima dos 65 anos.

Depois de ter sido agraciado com uma obra da autoria de Lídia Carrola, em 2016, o Grande Mestre António Fernandes regressa a Pombal para um realizar um estágio na Secção de Xadrez da Oficina Criativa da Fabrikarts. O Estágio Noel Jovem realiza-se de 18 a 21 de Dezembro, e as inscrições por sem efectuadas através do e-mail oficinacriativa.pbl@gmail.com, jorgebarrento@gmail.com, ou por telefone: 919 850 373.

POMBAL JORNAL (PJ) – O Grande Mestre foi agraciado com uma obra de Lídia Carrola numa homenagem em sua honra. O que pensa da iniciativa?
ANTÓNIO FERNANDES (AF) – Penso ser uma ideia muito interessante e casa muito bem com a modalidade que praticamos, pois o xadrez além de desporto é arte e é cultura.
Além de se dar a conhecer os artistas locais a uma área bastante abrangente, como é o caso do meio xadrezístico, através dos órgãos de comunicação social e tecnológicos, os xadrezistas que têm a possibilidade de receber uma obra dessas seja através de uma homenagem ou como um prémio de um torneio ficarão certamente privilegiados com tal prémio, mais a mais quando esse mesmo prémio vem das mãos de artistas famosos, tal como foi para mim um privilégio relativamente às obras que já recebi de alguns dos ilustres artistas aí de Pombal.
Eu atrevia-me a sugerir a todos os organizadores do nosso país para que este seja um exemplo a seguir, uma vez que nas diversas terras do nosso país onde são organizados determinados eventos os mesmos ficariam muito mais glorificados se atribuíssem como prémios obras locais que representam as gentes e os locais do nosso país.

PJ – Como define “Oficina Criativa – Fabrikarts”?
AF – Como o próprio nome indica, trata-se de uma oficina com ideias originais no sentido de promover a arte a vários níveis.

PJ – É o recordista nacional em títulos, pensamos que 15, sem contabilizar os títulos em Rápidas e Semi-Rápidas. Como é possível este feito?
AF – Sim é verdade, 15 títulos nacionais em clássicas, 14 títulos nacionais em partidas rápidas e sete títulos nacionais em partidas semi-rápidas.
Se por um lado significa que existe alguma persistência da minha parte para continuar no topo e a lutar por qualquer título em qualquer prova no nosso país, por outro espelha a falta de apoios e incentivos por parte de empresas privadas e/ou estatais a esta modalidade.
É impensável que no nosso país os melhores jogadores nacionais, tirando um ou outro caso, continuam a ser aqueles de à 35 anos a esta parte.

PJ – Portugal tem poucos Grandes Mestres, comparando com a nossa vizinha Espanha ou França, a diferença é abismal. O que vai mal? As bases de iniciação no xadrez escolar?
AF – Obviamente que seria importante, a todos os níveis, iniciar-se o xadrez em todas as escolas:  certamente quem seria mais beneficiado seriam sem qualquer dúvida as crianças que pudessem beneficiar dessa disciplina, pelas diversas vantagens e benefícios pedagógicos que o xadrez nos possibilita. Benefícios mais do que comprovados, quer a nível da capacidade de concentração, da memória, da análise, do planeamento, do raciocínio lógico e abstracto, visão espacial, entre outros, pelo qual as Nações Unidas resolveram em 2012 aprovar no parlamento a introdução do xadrez nas escolas da União Europeia.
No entanto, para podermos ter mais Grandes Mestres num espaço de tempo não muito longínquo seria conveniente que houvesse apoios estatais e planos de incentivos a nível desportivo para que todo aquele, jovem ou menos jovem, com boas apetências para a prática da modalidade, pudesse optar por apostar numa carreira desportiva, à semelhança do que aconteceu há uns anos atrás na Grécia e na Turquia, ou em Inglaterra à mais de 40 anos através da iniciativa de um particular.

PJ – O que pensa de existirem professores no xadrez escolar sem formação na disciplina?
AF – A pergunta é um pouco complicada na medida que pode ferir algumas susceptibilidades. No entanto considero a resposta bastante fácil a qual pode ser respondida através do seguinte provérbio “Quem nasce torto, tarde ou nunca se endireita.”
Efectivamente se queremos bons alunos, há que ter bons professores! Para isso será necessário dar-se previamente a formação adequada, através de uma metodologia consciente, coerente e rigorosa àqueles que têm pretensões em leccionar o xadrez nas escolas. No entanto há que referir aqui um ponto extremamente importante, que é o de salientar que existe uma diferença muito grande na questão do ensino no que respeita ao ensino do xadrez em termos pedagógicos ou em termos de competição.

PJ – Em Dezembro o Mestre vai realizar um estágio para jovens na cidade de Pombal. O que os jovens podem esperar?
AF – Apenas que cada um deles possa dizer no final desse estágio que valeu a pena e que queriam ter mais assim.

PJ – O que pensa da aposta da Oficina Criativa no Xadrez vs arte?
AF – Na realidade desconheço os moldes e o plano de formação existente, mas pelo que me foi dado a conhecer têm tido um enquadramento de iniciativas muito positivas quer a nível da captação de jovens como na oferta de possibilidades de formação.

PJ – Que projecto lhe falta ou gostaria de realizar?
AF – Poder dedicar-me a 100% a esta modalidade, por forma a poder concretizar as metas a que me proponho atingir.

PJ – Um dos resultados de vulto do xadrez jovem foi Rúben Pereira sagra-se Vice-Campeão nos Mundiais sub-16, disputados em Antalya, Turquia. Como se treina um jovem destes? Porquê nunca mais se ouviu falar do xadrez jovem em Portugal?
AF – Talvez seja eu que seja bafejado pela sorte a esse nível, uma vez que os alunos a quem eu dei formação venceram os nacionais de jovens do seu escalão. O Rúben Pereira é um caso particular, ao qual dei formação com uma regularidade semanal durante mais de 6 anos. A exigência de muito trabalho e de alguns sacrifícios de ambas as partes possibilitou a sua fugaz ascensão na modalidade, a qual só foi possível concretizar-se com o trabalho de casa a que ele se submeteu por forma a cumprir um dos seus objectivos prioritários.
Relativamente à última parte da questão, não me compete a mim responder uma vez que, até hoje, apenas dei e dou formação a nível particular.