Eurico João: de Pombal para o Palco Mundo

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Cresceu e estudou em Pombal, rumou a Coimbra para se formar em Arquitectura. Chegou a projectar desfiles de moda, e o recinto do Bodo, no ano em que se realizou no Estádio de Futebol do Sporting Clube de Pombal. Actualmente é o responsável pela concepção, e concretização, do Cidade do Rock, de um dos maiores festivais de música. Eurico João, o pombalense que ‘constrói’ o Rock in Rio.

Eurico João não perde uma oportunidade de se reunir com a família, e com os amigos, em Pombal, terra que o viu nascer e crescer, e que até lhe pode ter aberto portas para o passo seguinte: a projecção de uma cidade musical, num dos maiores festivais de música, o Rock in Rio.
Pelos palcos que constrói, desde 2011, já passaram grandes nomes da música, a nível nacional. Podemos falar de Linkin Park, The Rolling Stones, Arcade Fire, Muse, Elton John, Shakira, ou Ivente Sangalo. Sente o peso da responsabilidade, e este ano “estou particularmente a acusar esse peso”, a razão é simples: “queremos entregar muitas coisas novas”, e por isso “continuamos na luta, a desenvolver e a pensar conteúdos diferenciadores e soluções novas”. Trata-se de um “processo que exige muita criatividade” e onde “tudo tem que ser diferente de umas edições para as outras”, por isso, assim que termina uma edição do Rock in Rio, Eurico João, e a equipa que coordena avança de imediato para o próximo.
“Em Setembro terminou o Rock in Rio Brasil, e em Outubro já estava a projectar a edição do festival em Portugal”. Para além destes dois eventos, existe também a edição norte americana, que se realiza em Las Vegas, e que para Eurico João, tem um peso acrescido. “As coisas lá são imensamente caras, e por isso levamos muitos matérias, e muita mão de obras de Portugal”, e isso acrescenta uma logística “incomparável”.  No fundo “fazemos omeletes sem ovos, ou seja temos de ser bastante criativos porque a partir de uma versão ‘low-cost’, temos de apresentar uma qualidade final ‘premium’, mas que permite “extravasar na nossa criatividade”.
Assim que o público passar a estrutura azul que delimita a entrada, vai reparar logo que o palco mundo está diferente. As placas metálicas que fazem o cenário passam agora a ser brancas — a novidade foi apresentada no Rio de Janeiro mas seguiu tudo de Portugal, onde a estrutura é construída — e a área cresce ligeiramente. Ainda assim, as principais mudanças serão notadas por quem trabalha nos bastidores. “Há mais uniformidade, as áreas técnicas estão mais arrumadas e a capacidade de carga na cobertura quase triplicou”, conta Eurico João, enquanto conta que “algumas bandas até estranharam que de uma edição para a outra tenhamos alterado as limitações do peso em palco”, mas depois “de mostrarmos as especificações mais técnicas ficaram surpreendidos com a nossa evolução”.
O Music Valley é um conceito completamente novo e fica na ponta oposta do parque, onde em 2016 estava a tenda electrónica. A piscina, construída nessa altura, é reaproveitada e incluída no mesmo espaço. No terreno ainda não são visíveis as mudanças e o espaço já está a ser preparado. Mesmo ao lado, onde antes era uma zona de serviço, vai ficar um espaço com carvalhos e sombras de outras árvores para descansar.

“tudo tem que ser diferente de umas edições para as outras”

O evento recebe cada vez mais famílias e, por isso, é preciso pensar em soluções de conforto, mas também opções que possam chegar a todas as faixas etárias: “se me perguntassem há seis anos atrás, se fazia sentido montar um palco exclusivamente para Youtubers, diria claramente que não”, mas nos dias que correm “faz todo o sentido”. Aliás, “o projecto foi apresentado o ano passado, no Rio de Janeiro e teve uma aceitação gigante, por isso vamos adapta-lo ao público português”.
No que diz respeito à segurança, Eurico João também fala das “entradas e saídas reorganizadas, onde há saídas de emergência nas laterais do palco mundo e outras opções prontas a colocar em prática em caso de existir o mínimo problema”.  Essa é uma das “maiores preocupações de um evento, afinal o evento chega a receber 90 mil pessoas por dia”.
Em cada edição há tecnologias novas que facilitam o trabalho no terreno e até existe um sistema de gestão de ocorrências ao qual os membros da equipa têm acesso: “Um call center interno recebe a informação, filtra e distribui para o responsável. Além disso, através do telemóvel, consigo ver em tempo real detalhes como a quantidade de água que tem cada depósito do parque”, conta o pombalense. Mas nem sempre foi assim: “em 2012 lembro-me de fazer centenas de quilómetros a correr de um lado para o outro. Agora já consigo ter várias horas em que ninguém me chama”, sempre dá para aproveitar um pouco do festival que o jovem projecta, mas que “acabo por não usufruir: estou a trabalhar, e qualquer incidente que ocorra, tem que ser travado de imediato”.
Fã incondicional de festivais e de música, Eurico João assume que “cada vez tenho menos tempo para aproveitar”, mas afirma que “é por um bom motivo”. No seu palco sonha ver tocar Depeche Mode: “ainda não aconteceu, mas todos os anos faço essa sugestão”. Quem sabe numa das próximas edições do festiva: afinal o palco é ‘dele’.