É mais “bolos”*

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Há muito tempo que a verticalidade deixou de ser um atributo essencial aos políticos. A fé que têm na falta de memória dos eleitores faz com que, despudoradamente, defendam hoje uma coisa e amanhã o seu contrário. Já nos habituámos a isso. No entanto, a internet e sobretudo, as redes sociais, criaram uma dificuldade adicional a quem “veste a casaca” de acordo com a sua conveniência. O “rasto digital” é uma coisa que não se apaga e, para mal dos nossos (e deles) pecados, pode ser “desenterrado” a qualquer momento, avivando a lembrança dos mais distraídos e tornando a vida mais difícil aos “troca-tintas”. Como a história que lhes quero contar não se passou há muito tempo, não foi necessário fazer grandes pesquisas. Todos nos lembramos bem das eleições para a liderança do PSD nacional. De um lado, Rui Rio: menos hábil politicamente (às vezes até desastrado), com uma oratória menos fluida, mas recto e pouco permeável a interesses instalados. Apesar de discordar politicamente de Rio, parece-me ser um homem estruturalmente honesto (qualidade rara no meio em que gravita). Do outro lado, Pedro Santana Lopes. Não consigo antipatizar com ele. Apesar da sua condição de zombie, vai conseguindo convencer muitos de que afinal a “zombisse” é uma pequena maleita passageira. Tipo unha encravada. Veja-se, por exemplo, a quantidade de deputados do PSD (quase metade do total) que aceitaram fazer parte da sua comissão de honra. GRANDE SANTANA!!!
Em Pombal (pois claro), os “notáveis” do PSD engrossaram a fileira de apoiantes de Santana. E não se tratou de um apoio tímido: Diogo Mateus encabeçou a sua comissão de honra no distrito de Leiria; João Santos (ex-líder da JSD de Pombal) foi o director de campanha para o distrito; Pedro Pimpão espessou a agremiação de deputados santanistas. “Salvou-se” Renato Guardado. Talvez por ser portador de inteligência e de lídimas convicções.
Mais intrigante do que o posicionamento dos laranjas pombalenses na estrutura de apoio a Santana Lopes, foi o que verbalizaram ao longo da campanha: Os laranjas mais pequeninos inundaram o facebook com vídeos em que repetiam, vezes sem conta, num tom mais ou menos eloquente: “eu sou Santana”; Diogo Mateus, por seu turno, foi mais específico e, segundo li no Jornal de Leiria, afirmou, e cito: “Santana Lopes representa uma expectativa, um alento e uma esperança que me entusiasma mais. Está mais ligado às pessoas”.
No caso dos petizes, ao afirmarem que eles próprios são o Santana, demonstraram que, mais do que um simples alinhamento político, nutrem por ele um fascínio a roçar a alienação. Já Diogo enfatizou a esperança que Santana representa para si. Sem perder muito tempo em considerações etimológicas em relação ao substantivo, esperança corporiza uma fé. Quase um apelo divino para que algo de positivo aconteça. E todos sabemos como Diogo aprecia o misticismo.
Santana perdeu as eleições. OHHHHH!!!!! Mas, SURPRESA!!! Qual lavagante que, apesar de cortado ao meio e colocado em cima de uma chapa incandescente, ainda mexe as patas, REINVENTA-SE. Entrega o cartão do PSD e cria um novo movimento político: o Aliança. Apesar de reconhecer que os caminhos da política são sinuosos, nublados e lamacentos, seria expectável que aqueles que exorbitaram a figura inspiradora de Santana Lopes o acompanhassem. Será que teremos aqui em Pombal um corrupio de trocas de cartões laranja por outros azuis clarinhos? Ou será que o encanto, quase hipnótico, que Santana exercia sobre estas criaturas não advinha propriamente das suas ideias e da sua figura egrégia? HMMMM! Se calhar eram mais os “bolos”.

*O autor deste artigo acha que quem pensou o novo acordo ortográfico é uma figura muito pouco inspiradora.

Aníbal Cardona

 

 

 

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Engenheiro Técnico Agrário pela Escola Superior Agrária – IPB – Beja. Licenciado em Segurança e Higiene do Trabalho e Mestre em Gestão Integrada da Qualidade, Ambiente e Segurança pela Escola Superior de Segurança, Tecnologia e Aviação – ISEC – Lisboa. Foi durante mais de uma década responsável de Departamento da Qualidade, Ambiente e Segurança em diversas empresas. É consultor e formador em Sistemas de Gestão. É Professor Adjunto Convidado na Escola Superior de Tecnologias da Saúde de Coimbra. Foi prelector / moderador em diversos congressos, seminários e work-shops sobre a temática da Segurança e Higiene do Trabalho e Gestão da Qualidade. É autor e co-autor de diversos artigos científicos publicados na área da Saúde Ocupacional. Desempenha actualmente as funções de vereador da Câmara Municipal de Pombal.