Ana Luísa Silva: “As pessoas não querem falar de morte, embora ela faça parte da vida”

0
4998

Depois da trágica notícia que assolou o concelho, e que dava a conta da morte repentina de seis jovens num grave acidente automobilístico, falámos com a psicóloga Ana Luísa Silva, mestre em Cuidados Paliativos e especializada em Processos de Luto. É tempo de cuidar de quem fica.

O ritmo do dia-a-dia por vezes consegue ser bastante acelerado. Corremos do trabalho para casa, de casa para o hipermercado, do ginásio para o trabalho novamente, e em casa acabamos por adiar o convívio com os amigos, com o marido ou com os filhos: o passeio no parque fica para amanhã, vamos experimentar aquele restaurante novo na próxima semana. Adiar os planos pode parecer um hábito comum, mas por vezes perdemos oportunidades de uma vida, afinal adiar significa apenas transferir uma determinada tarefa para outro dia.
Por vezes não temos tempo para jantar com a família, ou de tomar o pequeno-almoço com os filhos, porque acreditamos que no dia seguinte vamos ter uma melhor oportunidade, e aqui a questão prende-se simplesmente com o facto de acreditarmos sempre que vai existir um “amanhã”, o que por vezes pode não acontecer.
Quando saímos de casa, pela manhã, acreditamos sempre que ao final do dia regressamos ao lar, mas a Vida pode pregar partidas e nem sempre existe um regresso. Quando fomos assolados com a trágica notícia da morte de seis jovens do concelho, percebemos que por vezes o tempo é escasso e que nem sempre existe “amanhã”.
Quando uma notícia desta natureza chega sem aviso prévio, é necessário olhar por quem fica, pela mulher que ficou viúva, pelo filho que ficou órfão, ou pela mão que perdeu o seu filho. A psicóloga Ana Luísa Silva, mestre em Cuidados Paliativos e especializada em Processos de Luto explica que “uma mulher que perde o esposo é chamada de viúva e o filho que perde os pais vira órfão, mas não há no dicionário um termo que designe o pai, ou a mãe, que perdeu um filho”, afinal o amor materno, e paterno, é o tipo de sentimento que só entende quem já teve filhos. “A intensidade e extensão desse sentimento não podem ser comparadas com as de qualquer outro”. Por isso, o luto pela perda de um filho costuma ser muito mais complexo e difícil de superar: “a crença de que a Lei da Natureza determina que os mais velhos morrem antes dos mais novos dificulta ainda mais a compreensão do que é enterrar o corpo do próprio filho”. Mas, como não é sempre assim, resta aprender a lidar com o sofrimento e a dor provenientes desse tipo de perda.

 “Não há no dicionário um termo que designe o pai, ou a mãe, que perdeu um filho”

A especialista explica que, para alguém que acaba de perder um filho, “a melhor forma de encarar o período de luto é não negar a necessidade de chorar, sentir-se mal, vivenciar aquela dor”, no fundo “a marca que a morte deixa em quem está vivo nunca deixa de existir”, e “ainda bem que assim é”, refere, afinal, “a memória é muito importante”.
Por vezes há pais, que após receberem uma notícia desta índole, “imaginam que o filho está a fazer uma viagem”, o que é “saudável numa fase inicial”, admite a terapeuta, mas mais tarde, “quando conseguem viver com a sua dor, podem optar por usar alguma coisa que os ligue ao filho que perderam”, como um relógio, ou guardar a última mensagem de telemóvel, ou procurar o cheiro nas roupas antigas, “e aqui já é um sinal de que interiorizaram que os filhos não estão vivos, por isso precisam de suporte para se sentirem mais próximos”.
Depois de uma perda assim, “todos os dias são uma aprendizagem, uma reconstrução”. O “caminho percorrido é longo”, garante, e faz-se “com passos inseguros, e alguns tropeções”.
Segundo Ana Luísa Silva, “cada pessoa tem uma maneira de encarar os factos, mas, para que a dor possa ser amenizada com o passar do tempo, um passo importante é encarar a realidade com resignação, sem fugir à realidade”.
“No início da penosa jornada há sempre um sentimento comum entre os pais em luto: a Culpa”, revela a psicóloga, no entanto “a nossa sociedade tem um grande problema, que está em confundir as causas com a culpa”, e nestes casos é necessário “que os pais entendam o sucedido e as circunstancias em que tudo aconteceu, encontrando nelas alguma razão e reflectindo sobre aquilo com que ocupamos a vida”, e explica que “é preciso encarar os factos, enquadra-los e aceita-los para seguir em frente, voltando a tentar abraçar a vida”.
“Só depois de as pessoas se perdoarem a elas mesmas e, eventualmente, aos outros, como no caso de acidentes, é que se inicia o processo de luto”. A “pacificação” é um dos últimos estádios da “caminhada da dor”, afirma o especialista em Processos de Luto. Este é um processo que “surge depois do momento de choque e confusão emocional”, sentidos normalmente, numa primeira fase de “negação, revolta e dor profunda” e de uma possível “desorganização emocional interna que pode levar à depressão, e que antecede a reconstrução interior”.

“A dor dá lugar à saudade, ao amor, e ao sentimento de imortalidade”

Depois de atravessar as várias fases que o luto acarreta, “a dor dá lugar à saudade, ao amor, e ao sentimento de imortalidade”, uma transformação que a psicóloga gosta de chamar de “doces e suaves memórias”. “O ideal é que o enlutado encontre espaço para falar do assunto, no seu tempo e do seu modo. Não há receita para aliviar a dor, mas certamente a negação daquela morte e a culpabilização pelo que poderia ter sido feito para evitar a morte do ente querido são factores que intensificam o processo de luto e o tornam mais penoso”, explica.
Muitas vezes o sofrimento é tão intenso que pode levar a problemas emocionais graves e prolongados, como a depressão. Assim, a linha que divide o que é o luto normal de um comportamento depressivo é bastante ténue.
Para a especialista, os “grupos de entreajuda” são uma das formas mais saudáveis de lidar com estas perdas, uma vez que “podem partilhar a dor que sentem com outras pessoas que estão a passar por situações semelhantes”, e que certamente “vão perceber o que aquela pessoa está a sentir”, e isso ajuda a “aliviar” a dor que se sente. Neste sentido a psicóloga explica que os “grupos devem ser organizados de forma diferente, e com temáticas semelhantes”, por exemplo: “não devemos juntar num grupo de entreajuda pessoas que perderam o marido, com pessoas que estão a fazer o luto aos filhos”, e explica que “são dores diferentes e incomparáveis”.
Ana Luísa Silva lamenta que no concelho de Pombal “ainda não exista uma resposta estruturada de cariz público, privado ou misto para trabalhar a temática do Luto”, e assume que “as pessoas não querem falar de morte, embora ela exista e faça parte da vida”.

Partilhar
Artigo anteriorRENDALÍSSIMA | o outono
Próximo artigoCâmara reconhece ‘anomalia’, mas garante qualidade de água pública
Nasceu em 1985, estudou Comunicação Social na Escola Superior de Educação de Coimbra e participou num curso de formação em Jornalismo e Crítica Musical. Passa os dias a ouvir música, adora assistir a concertos e sonha viajar pelo mundo com uma mochila às costas.